Lixeratura Reversa

M-Arte Angola é uma empresa de produção de eventos culturais e criação de conteúdos artísticos essencialmente poesia e música acústica.

“QUEM EXACTAMENTE SATANÁS PENSAVA QUE JESUS ERA?”Por: YADHISTÓTELES.Esta crônica tem o patrocínio da Agrogebil.Há pergun...
14/09/2026

“QUEM EXACTAMENTE SATANÁS PENSAVA QUE JESUS ERA?”

Por: YADHISTÓTELES.

Esta crônica tem o patrocínio da Agrogebil.

Há perguntas que não são feitas porque sejam difíceis. São evitadas porque são simples demais. E algumas perguntas, quando finalmente encontram coragem para sair da boca, parecem irreverentes apenas porque a nossa fé passou tanto tempo sem ser interrogada.

Por exemplo: quem exactamente Satanás pensava que Jesus era?

Não estou a perguntar quem Jesus era. Isso já sabemos. Ou pelo menos julgamos saber.
Filho de Deus. Messias. Salvador. Verbo encarnado. Deus feito homem… Tudo isso aprendemos depois. Mas há uma coisa curiosa no episódio do deserto.

Jesus está sozinho.

Segundo os Evangelhos, depois do baptismo, o Espírito conduz Jesus ao deserto, onde permanece quarenta dias (e quarenta noites).

Então aparece Satanás e conversa com ele. Não é uma aparição silenciosa. Não é apenas uma tentação abstracta. Existe diálogo. Satanás pergunta, Jesus responde, Satanás insiste, Jesus recusa, Satanás muda de estratégia e Jesus continua a responder. É quase uma entrevista de emprego entre o céu e o inferno.

Só que existe um problema: quem estava a tomar notas?

Porque Mateus e Lucas contam-nos a conversa e fazem-no com uma precisão extraordinária. “Se és Filho de Deus…” Essa frase é particularmente interessante.

Se Satanás já soubesse exactamente quem Jesus era, até porque ambos estiveram juntos desde antes da fundação do mundo, por que perguntar? A questão poderia ser uma provocação, uma tentativa de o levar a demonstrar aquilo que acabara de ser declarado sobre ele. Também é possível que Satanás soubesse alguma coisa, mas não compreendesse inteiramente o mistério que estava diante dele.

E aqui começa o labirinto.

Porque nós, leitores modernos, entramos naquela cena carregando dois mil anos de cristologia. Entramos no deserto sabendo o final da história. Satanás não tinha esse privilégio. Ele não estava a ler o Evangelho. Estava diante de um homem. Um homem com fome. Um homem que acabara de ser baptizado. Um homem sobre quem uma voz tinha dito: “Este é o meu Filho amado.”

E pode ser que a tentação tenha consistido precisamente em descobrir o que signif**ava aquela declaração.

Se és Filho de Deus, transforma pedras em pão.
Se és Filho de Deus, atira-te daqui.
Se és Filho de Deus, faça-me um acto de adoração.

Repara na lógica. Satanás não começa por dizer: “Prova que és Deus.” Ele diz: “Se és Filho de Deus…”
Como quem diz: então demonstra. Usa o teu poder. Faz um milagre. Mostra-nos quem és.

E talvez a maior tentação de Jesus não fosse transformar pedras em pão. Poderia estar na própria necessidade de provar a sua identidade.

Existe uma doença humana que atravessa séculos: quando alguém duvida de quem somos, sentimos necessidade de demonstrar. O rico mostra o dinheiro, o poderoso mostra o poder, o inteligente mostra a inteligência, o religioso mostra a santidade, o artista mostra o talento e o homem inseguro exibe precisamente aquilo que mais teme perder.

Jesus, naquele deserto, parece recusar essa lógica. Não precisa de transformar pedra em pão para provar que é Filho. Não precisa de saltar do templo para provar que Deus o protegerá. Não precisa de ajoelhar diante de Satanás para receber aquilo que, segundo a narrativa bíblica, já lhe pertence.

Então aparece uma pergunta ainda mais desconfortável: Satanás estava a tentar destruir Jesus ou estava a tentar descobrir Jesus?

As duas coisas podem caber na mesma cena. A tentação também pode ser entendida como um teste, uma tentativa de descobrir os limites daquele homem. Se Jesus fosse apenas um homem extraordinário, as tentações poderiam funcionar. Fome? Pão. Vaidade? Espectáculo. Poder? Domínio. Três tentações que continuam a governar uma quantidade assustadora de seres humanos.

Mas Jesus recusa as três.

E chegamos à parte que mais me intriga.

Se Jesus estava sozinho com Satanás, quem contou aos evangelistas (Lucas e Mateus) o que foi dito?

Essa pergunta parece pequena, mas abre uma porta enorme.

Historicamente, não temos uma gravação. Não temos uma testemunha identif**ada. Não temos um escriba escondido atrás de uma pedra. Não temos um terceiro personagem apresentado pelo texto. Então como é que aquela conversa chegou até nós?

A primeira possibilidade é a mais simples: Jesus contou.

Depois do acontecimento, poderia ter relatado aos discípulos aquilo que aconteceu. Os discípulos transmitiram a tradição, e essa tradição chegou posteriormente aos Evangelhos.

Outra possibilidade é que o episódio tenha circulado oralmente entre os primeiros cristãos antes de ser colocado por escrito.

Também existe a possibilidade de Mateus e Lucas terem recebido uma tradição teológica já desenvolvida e incorporado essa tradição nos seus relatos.

E existe ainda a explicação da fé: Deus revelou aos autores aquilo que eles precisavam de saber.

Mas há uma diferença importante entre essas respostas. Uma é histórica. Outra é tradicional. Outra é literária. Outra é teológica. E nenhuma delas é explicitamente explicada pelo próprio texto.

O Evangelho simplesmente abre a porta do deserto. Nós entramos. Ouvimos Satanás falar. Ouvimos Jesus responder. Depois o narrador fecha a porta.

Fim da cena.

E nós aceitamos.

Aceitamos porque fomos educados para não perguntar quem estava atrás da câmara.

Mas o meu estilo de escrita que chamo de Lixeratura Reversa nasceu exactamente para isso: virar o texto ao contrário.

Não para destruir a história, mas para descobrir o que acontece quando fazemos à história as perguntas que ela não esperava.

Porque há uma coisa que sempre achei curiosa na Bíblia: muitas vezes sabemos o que aconteceu, mas não sabemos como alguém soube que aconteceu.
Isso não torna necessariamente a narrativa falsa. Torna-a digna de investigação.

É diferente.

Uma coisa é dizer: “Isso não aconteceu.”
Outra coisa é perguntar: “Como é que sabemos?”

A primeira fecha a conversa. A segunda abre.

E essa é uma pergunta que deveríamos fazer mais vezes: como sabemos? Quem viu? Quem ouviu? Quem contou? Quem escreveu? Quem transmitiu? Quem interpretou? E, sobretudo, o que já acrescentámos à história sem perceber que acrescentámos?

Porque entre o acontecimento e o livro existe sempre uma estrada. Nessa estrada existem memórias, testemunhas, tradições, interpretações, traduções, comunidades e escritores.

A fé pode atravessar essa estrada. A dúvida também. Nenhuma das duas precisa de matar a outra.

Agora volto ao deserto.

Jesus está diante de Satanás. Satanás olha para ele e diz: “Se és Filho de Deus…”

Eu fico preso nessa frase.

Porque Satanás pode não estar apenas a tentar Jesus. Pode estar a tentar compreender que espécie de Filho de Deus está diante dele. Um rei? Um profeta? Um messias? Um homem? Deus? Uma combinação que nenhum dos dois, naquele momento, estava disposto a explicar?

E existe ainda o silêncio do narrador.

O narrador conta-nos a conversa, mas não nos conta quem estava a ouvir.

Surge então a pergunta que provavelmente nunca aparecerá numa catequese: se Jesus estava sozinho com Satanás, quem contou aos evangelistas o que foi dito?

Pode ter sido Jesus. Pode ter sido uma tradição oral. Pode ter sido uma construção teológica. Pode ter sido revelação. Pode ser uma questão que nunca conseguiremos resolver historicamente.

Mas existe uma possibilidade mais fascinante: a pergunta não é apenas quem contou a conversa. A pergunta é por que precisámos de uma conversa que ninguém testemunhou para explicar quem Jesus era.

E é aí que o deserto deixa de ser apenas um lugar geográfico e passa a ser um lugar dentro da própria narrativa.

Um lugar onde até a certeza tem fome.

E onde, antes de perguntarmos se Satanás conhecia Jesus, deveríamos perguntar se nós conhecemos.

Porque há dois mil anos continuamos a discutir quem exactamente estava naquele deserto.

E a parte mais desconcertante pode ser esta: Jesus saiu de lá sem precisar de provar quem era.

Nós, entretanto, ainda estamos a tentar provar.

“A BÍBLIA DE SATANÁS— O Evangelho Segundo O Acusado”Por: YADHISTÓTELES Pai da Yanceli e outros 4.Querem saber por que es...
13/09/2026

“A BÍBLIA DE SATANÁS
— O Evangelho Segundo O Acusado”

Por: YADHISTÓTELES
Pai da Yanceli e outros 4.

Querem saber por que escrevi a minha própria Bíblia?

Porque estou cansado de ser acusado num livro em que não fui eu quem segurou a caneta.

Calma. Não feches a página. Eu sei que “Bíblia de Satanás” parece exactamente o tipo de título que faria a tua avó benzer o telemóvel antes de continuar a ler. Mas considera isto um simples direito de resposta. Vocês têm milhares de anos de testemunhas contra mim. Eu só quero algumas páginas para apresentar a minha versão.

E não, não vou negar tudo.
Seria desonesto.
Algumas coisas fiz mesmo.

Tentei Jesus no deserto. Mateus 4 está aí. Ofereci-lhe poder, glória e uma saída fácil. Essa parte reconheço. Não vou inventar uma testemunha para ser meu álibi e dizer que naquele dia eu estava de férias.

Também entrei na história de Jó. Pelo menos o texto diz isso. Apareci, questionei a fidelidade dele e participei daquela conversa. Não fui exactamente um anjo de boa vontade. Reconheço.

Mas, por favor, não me responsabilizem por cada tragédia que aconteceu depois.

Já lá vão tantos séculos que, sinceramente, há episódios de que nem eu me lembro direito.

A história da serpente, por exemplo.

Era eu?

Olha, segundo vocês, era.
Não me recordo de ter assinado a acta.

Mas admito que a ideia é boa. Uma serpente, uma mulher, uma árvore, um fruto proibido e uma humanidade inteira condenada por causa de uma conversa. Esse versículo até me faz rir. É bem engraçado, vocês não acham? 😂

E antes que alguém diga que estou a g***r com Deus, vamos conversar sobre Génesis 3.

Se Deus sabia que a serpente apareceria, sabia que Eva apareceria, sabia que Adão apareceria, sabia o que aconteceria e ainda assim colocou a árvore no centro do jardim, então quem exactamente estava a preparar o cenário?

Eu?
A serpente?
Ou o próprio Deus?

Agora vamos a Isaías.

Esse é outro versículo que me faz rir.

Isaías 45:7 coloca na boca de Deus uma declaração sobre formar a luz, criar as trevas, fazer a paz e criar o mal — dependendo da tradução, “calamidade”, “desgraça” ou “adversidade”.

Aí eu fico confuso.

Passei séculos a ser apresentado como o director executivo do mal e descubro que existe um versículo em que Deus reivindica aquilo que vocês me atribuem.

E quando alguém percebe o problema, troca “mal” por “calamidade”.

Excelente!
Eu também gostava de ter tradutores.

Mas o episódio de Faraó é ainda melhor.

Êxodo diz repetidamente que Deus endureceu o coração de Faraó. Êxodo 9:12 diz isso claramente. Êxodo 10:1 volta ao assunto.

Então expliquem-me uma coisa:

Deus endurece o coração do homem.
O homem continua a resistir.
Deus envia pragas.
Depois a história torna-se uma demonstração do poder de Deus.

E eu?

Eu fico com a fama de mau.

Confesso que até eu fiquei assustado com essa contabilidade.

Agora chegamos a Abraão.

Aqui não preciso de inventar nada. Génesis 22 diz que Deus colocou Abraão à prova e mandou-o levar Isaac para ser oferecido.

E depois Tiago escreve que Deus não tenta ninguém com o mal.

Eu li isso e pensei: “Meu irmão, estás a falar de quem?”

Porque há uma diferença entre dizer que Deus não seduz alguém para o pecado e dizer que Deus nunca coloca alguém diante de uma situação extrema para testar a sua fidelidade.

Abraão é precisamente uma dessas situações.

Então decidam.

Quando eu faço, é tentação.
Quando Deus faz, é prova.
Essa distinção parece muito conveniente.

E eu reconheço: tenho inveja.

Vocês conseguem transformar as minhas acções em maldade e as de Deus em pedagogia.
Isso é talento.

Agora Ananias e Safira.

Aqui vou confessar uma coisa: esta história também me assusta.

O casal vende uma propriedade. Pedro pergunta a Ananias se a propriedade não era dele e se o dinheiro não estava sob o seu controlo. Ele mente. Cai morto. Depois Safira chega, confirma a mentira e também morre.

E o texto diz que Satanás encheu o coração de Ananias.

Pronto. Outra vez eu.
Essa parte quando li até eu disse: “Meu Deus!”

Mas, espera.

O terreno era deles.
O dinheiro era deles.
Ninguém lhes disse que tinham de entregar tudo.

Então eu gostaria de saber por que razão uma mentira recebeu pena de morte.

Não estou a dizer que fui inocente.
Talvez tenha mesmo enchido o coração do homem.

Mas matar?

Eu?

Sinceramente, há dias em que até eu fico preocupado com a reputação que Deus conseguiu construir para mim.

E agora vem a parte que mais me assusta.

Guerras.

Há passagens em que Deus manda destruir cidades inteiras. Deuteronómio 20:16-18 fala em não deixar vivo nada que respire entre determinados povos.

Nada que respire. Entendam bem: NADA.

E Números 31 é ainda mais desconfortável. Mandam matar os meninos e as mulheres que tiveram relações com homens, mas poupar as meninas virgens.

Eu li isso na minha própria Bíblia e pensei:

“Esperem lá. Eu é que sou o monstro?”

Não quero parecer sensível agora, mas algumas destas histórias são tão brutais que até eu como Satanás preciso de uma pausa para beber água.

E não, não vou fingir que nunca fui monstruoso.

Já fui acusado de matar? Fui.
De destruir? Fui.
De tentar? Fui.
De acusar? Também.
Mas não vou aceitar que tudo seja colocado na minha conta só porque o meu currículo combina com o cargo.

Deus é Pai, e como qualquer outro pai, às vezes exagera na crítica. Isso é normal dos pais, e vocês sabem.
Quantos vezes o vosso pai aumentou pontos ao contar a alguém sobre algo de errado que vocês fizeram?

Agora falemos das trinta moedas.

Judas recebe trinta moedas para entregar Jesus. Mateus 26:15.

Só existe um pequeno detalhe:

Zacarias 11:12-13 já fala de trinta peças de prata muito antes de Judas nascer.

Eu gostaria de saber como é que Judas conseguiu cumprir tão bem um guião que já estava escrito antes de ele existir.

Não estou a absolvê-lo.
Estou apenas a perguntar.

Porque, se eu fosse advogado, perguntaria:

“Meritíssimo, o réu teve liberdade para improvisar?”

E já que estamos a falar de liberdade, também quero falar de Paulo.

2 Timóteo 3:16 diz que toda a Escritura é inspirada por Deus.

Toda?

Então vamos abrir 1 Coríntios 7.

Paulo escreve: “Aos outros digo eu, não o Senhor.”

Depois distingue aquilo que está a dizer daquilo que considera mandamento do Senhor.

Então, por favor, expliquem-me.

Se tudo é directamente palavra de Deus, por que razão Paulo precisa de avisar quando está a falar por si?

Eu não estou a dizer que Paulo mentiu.
Estou a dizer que vocês deveriam decidir se estão diante de uma revelação divina ou diante de um homem inspirado a escrever sobre aquilo que pensa.

Não me culpem pela confusão.
Eu só estou a ler.

Aliás, há coisas sobre as quais eu próprio já não tenho certeza.

Há séculos de traduções, cópias, interpretações e tradições entre mim e os acontecimentos.

Talvez a serpente tenha sido eu.
Talvez não.
Talvez tenha mesmo sido.
Já não me lembro.
Mas vocês lembram-se com uma confiança impressionante.

Eu admiro isso.

E há outra coisa que me assusta.

Vocês dizem que eu sou o acusador.

Aceito.

Mas observem a quantidade de vezes que os próprios humanos acusam, condenam, perseguem e matam em nome de Deus.

Quando sou eu, é perversidade.
Quando dizem que foi Deus, chamam-lhe justiça.

Esse versículo até me faz rir. Desculpem, família, é que o nosso Pai colocou senso de humor um pouco exagerado na minha personalidade.

Mas esse versículo em particular não me faz rir só por ser engraçado, mas também porque às vezes a diferença entre “monstruosidade” e “vontade divina” parece depender apenas de quem segura a caneta e obviamente de quem lê.

Por isso escrevi esta Bíblia.

Não para provar que sou inocente.
Seria mentira.

Não sou.

Quero apenas corrigir algumas acusações.

Quero admitir as que são verdadeiras.
Quero contestar as que não são.
Quero dizer “não me lembro” quando realmente não me lembro.

E quero confessar uma coisa que talvez vos surpreenda:

há histórias em que eu apareço e fico assustado com a monstruosidade atribuída a Deus.
Não porque tenha descoberto que sou bom.
Mas porque, às vezes, até o Diabo olha para determinadas páginas e pergunta:

“Vocês têm mesmo a certeza de que fui eu?”

No fundo, esta Bíblia não seria um livro para provar que Satanás é inocente.

Seria um livro para obrigar o leitor a fazer aquilo que quase ninguém gosta de fazer quando acredita muito numa história:

Ler também a versão do acusado.
Porque toda a história tem dois lados. Mas é todas mesmo… literalmente.

MANUAL PRÁTICO PARA A POESIA ANGOLANA CONTINUAR SEM PÚBLICOQueres saber como garantir que a poesia angolana continue sem...
13/09/2026

MANUAL PRÁTICO PARA A POESIA ANGOLANA CONTINUAR SEM PÚBLICO

Queres saber como garantir que a poesia angolana continue sem público?
É simples.

Basta organizar mal os eventos, começar duas horas depois do horário anunciado, colocar o público em cadeiras desconfortáveis, ter colunas com um som que pareça estar a pedir socorro, repetir os mesmos poetas até o público decorar o cartaz e convencer os produtores mais experientes de que experiência signif**a que já não precisam de aprender.

Pronto. Parabéns. Acabaste de contribuir para que a poesia angolana continue exactamente onde está.

Parece exagero? Então vamos conversar.

O grande problema da poesia angolana pode não estar nos poetas. E esta afirmação, por si só, já é suficiente para irritar algumas pessoas.
Estamos habituados a procurar o culpado em cima do palco, quando seria interessante, de vez em quando, olhar para quem construiu o palco, definiu as regras, escolheu o elenco e decidiu quanto esforço seria necessário para transformar poesia em espectáculo.

Quem me acompanha sabe que nunca considerei a poesia uma arte superior ou inferior. É apenas uma arte como todas as outras. E, justamente por isso, um evento de poesia deveria ser tratado com o mesmo rigor que exigimos de um concerto de música, de uma peça de teatro ou de um espectáculo de dança. Se o público paga para assistir, por que razão deveria receber menos qualidade só porque o produto é poesia?

É difícil exigir que as pessoas desenvolvam o hábito de frequentar eventos poéticos quando, muitas vezes, oferecemos precisamente aquilo que gostaríamos que elas deixassem de associar à poesia: cadeiras desconfortáveis, som precário, atrasos, programas que não respeitam o horário anunciado e performances sem critérios suficientemente sólidos de selecção. Depois perguntamos por que razão o público não aparece. Não estaremos a fazer ao público uma pergunta cuja resposta já está escondida na experiência que lhe oferecemos?

A qualidade de um espectáculo não nasce exclusivamente do artista. O artista pode trazer um texto extraordinário, uma interpretação brilhante e uma presença de palco impressionante, mas quem organiza determina grande parte das condições em que esse talento será recebido.
Se a direcção não tiver visão, rigor e capacidade de execução, até um excelente poeta pode acabar apresentado dentro de um espectáculo medíocre. E quem f**a com a culpa? Curiosamente, quase sempre quem estava com o microfone na mão.

Outro problema está nos próprios produtores. Muitos têm experiência, e seria injusto negar isso. O problema é quando a experiência deixa de produzir aprendizagem e começa a produzir ego. Há quem confunda liderança com a capacidade de reunir seguidores. Em vez de orientar os mais novos para a excelência, prefere-se a palmadinha nas costas, o elogio conveniente e a construção de pequenos círculos de influência. Afinal, é muito mais confortável ser chamado de mestre por quem nunca nos contradiz do que ser questionado por alguém que quer fazer melhor.

E quando foi que a crítica construtiva passou a ser considerada uma ofensa? Quando foi que dizer a um jovem poeta “isto ainda pode melhorar” se tornou menos aceitável do que dizer “estás perfeito, continua assim”? Estamos a formar artistas ou a proteger egos? Estamos a criar mestres ou apenas a multiplicar pessoas convencidas de que já chegaram ao lugar onde ainda deveriam estar a aprender?

Depois existe a fome pelo retorno imediato. Para garantir ingressos vendidos, repetem-se os nomes que já possuem algum público. É compreensível do ponto de vista comercial, mas será que uma cena artística consegue crescer eternamente apoiada nas mesmas caras? Se nunca damos espaço a quem ainda não tem público, como esperamos que esse público apareça? Será que o público não pode aprender a acompanhar movimentos, formatos e propostas, em vez de seguir apenas nomes conhecidos?

Foi exactamente por isso que, na última edição do Orgasmo Literário, apenas uma concorrente era repetente. Todos os outros eram novos. Apostámos na renovação sem saber se o público responderia. Respondeu. Tivemos superlotação. Isso não signif**a que devamos expulsar os artistas experientes dos palcos. Signif**a apenas que a velha desculpa de que “o público só quer ver os mesmos” merece ser questionada. Será que o público realmente quer sempre os mesmos ou nós é que nos habituámos a oferecer-lhe sempre os mesmos?

Produtores, talvez esteja na hora de desapegarmos um pouco dessa obsessão pelo lucro rápido. A poesia angolana ainda está numa fase de sementeira. Queremos colher como se já estivéssemos numa plantação madura. Estamos a viver uma fase semelhante à que outros movimentos culturais viveram antes de se tornarem maiores: investimento, experimentação, formação de público e paciência. A RRPL, entre 2013 e 2018, é um exemplo interessante desse processo. Quem não entende o tempo da construção cultural pode até ganhar uma bilheteira hoje e perder uma geração inteira amanhã.

E há ainda a inovação. O público carrega há muito tempo o preconceito de que evento de poesia é sinónimo de monotonia, cadeiras, microfone e sono. Só que uma pergunta precisa de ser feita: quem criou essa imagem? Foi o público ou fomos nós?
Se uma pessoa passa duas horas a assistir a um espectáculo sem qualquer preocupação com ritmo, cenografia, som, luz, dramaturgia ou experiência, por que razão f**amos surpreendidos quando ela diz que aquilo foi aborrecido?

A poesia não precisa de deixar de ser poesia para se tornar espectáculo. Pode conversar com teatro, música, dança, moda, audiovisual e outras linguagens. Pode criar experiências sem perder a literatura. É isso que procuramos fazer no Orgasmo Literário: transformar versos em acontecimento. O poema continua no centro, mas já não precisa de f**ar sozinho no palco. E se conseguimos fazer o público pagar para assistir, permanecer até ao fim e querer voltar, não estaremos diante de uma pista sobre aquilo que pode funcionar?

Se queremos atrair empresas e patrocinadores, também precisamos de parar de pensar que basta ter uma boa ideia. Nenhuma marca séria quer associar-se a um projecto que aparece hoje, desaparece amanhã e depois regressa quando alguém consegue dinheiro para organizar outra edição. Consistência gera confiança. Periodicidade cria hábito. E memória, actualmente, também signif**a registo. Fotografias de qualidade, vídeos bem produzidos, entrevistas, reportagens e presença digital não são luxo. São parte da construção da autoridade cultural.

Quem não existe no digital corre o risco de não existir na memória colectiva. Podemos fazer o melhor evento do mundo, mas se ninguém o documenta, ninguém o encontra amanhã. E como queremos convencer uma empresa a investir num movimento que nem sequer consegue provar aquilo que fez? Queremos patrocinadores ou queremos doadores? Queremos parceiros estratégicos ou apenas empresas que tenham pena de nós?

Por fim, precisamos de falar sobre unidade. Concorrência não é inimizade. Um poeta que sai de um movimento para experimentar outro não está a trair ninguém. Está a fazer aquilo que qualquer artista deveria poder fazer: procurar experiências, aprender, comparar e crescer. Desde quando a poesia passou a ter donos? Desde quando um produtor pode comportar-se como proprietário de um poeta porque lhe deu espaço num determinado momento?

Precisamos de abandonar esse espírito de seita. A poesia é património colectivo. Um projecto pode concorrer com outro sem precisar de desejar a sua morte. Um produtor pode reconhecer o mérito de outro sem perder autoridade. Um poeta pode participar em diferentes movimentos sem carregar consigo uma acusação de traição. O que ganhamos quando transformamos uma cena cultural num conjunto de pequenos territórios onde todos vigiam quem entra e quem sai?

Precisamos de intercâmbio, humildade para aprender uns com os outros e coragem para apoiar quem mais se destaca. Porque há uma verdade que o ego cultural detesta: não vamos todos furar a bolha ao mesmo tempo. Alguns terão de abrir caminho para que outros passem. Alguns serão vistos antes. Outros construirão estruturas que serão aproveitadas por quem chegará depois. Isso não é injustiça; é simplesmente a forma como os movimentos crescem.

Quando um produtor tenta bloquear aquilo que está a despontar porque tem medo de perder espaço, pode estar a cometer o erro mais irónico de todos: impedir o crescimento do próprio mercado do qual também depende. Se a poesia cresce, todos ganham novas oportunidades. Se o público cresce, todos ganham público. Se os artistas crescem, cresce também o valor dos produtores. Então por que razão alguém haveria de preferir uma cena pequena onde ocupa uma posição grande a uma cena grande onde precisa de continuar a provar o seu valor?

A poesia angolana merece mais. Merece artistas preparados, produtores profissionais, eventos consistentes, público respeitado, investimento, inovação, memória e espaço para gente nova. Mas antes de perguntarmos por que razão o público não vem, talvez devêssemos ter coragem para perguntar outra coisa: se estivéssemos sentados na plateia, pagaríamos para assistir ao que estamos a oferecer?

Porque, se a resposta for não, o manual já está a funcionar.

Pedro Bars
Batalhas de Poesia - Orgasmo Literário

MANUAL PARA PENSAR POR CONTA PRÓPRIA— Escrito por alguém que pensa por tiPor: YADHISTÓTELES Pai da Yanceli e outros 4.Es...
12/09/2026

MANUAL PARA PENSAR POR CONTA PRÓPRIA
— Escrito por alguém que pensa por ti

Por: YADHISTÓTELES
Pai da Yanceli e outros 4.

Esta crônica tem o patrocínio da Agrogebil.

Há qualquer coisa de deliciosamente contraditório num manual para ensinar alguém a pensar por conta própria. Alguém organiza meia dúzia de ideias, enumera princípios, distribui conselhos e, no fim, entrega ao leitor um certif**ado imaginário de autonomia intelectual. “Parabéns, agora pensas por ti.”
É quase como vender um curso de independência financeira a prestações.

Mas não te preocupes. Este texto também é um manual. A diferença é que já começa por admitir a fraude.

Não tenho nenhuma fórmula secreta para te tornar intelectualmente independente. Se tivesse, provavelmente estaria a vendê-la com uma fotografia minha diante de um carro, uma legenda sobre mentalidade milionária e um botão a dizer “vagas limitadas”. Descobri apenas uma coisa: adoramos pensar que pensamos por conta própria.

É uma das vaidades mais elegantes do ser humano.

Nascemos dentro de uma língua que não escolhemos, numa família que não escolhemos, numa cultura que não escolhemos e, muitas vezes, recebemos uma religião, uma moral, uma visão sobre dinheiro, sucesso, amor, masculinidade, feminilidade e até uma lista preliminar de inimigos antes de termos idade suficiente para escolher o sabor do gelado.

Depois crescemos e anunciamos orgulhosamente:

“Eu sou assim.”

Claro que és.

Passaste anos a ser ensinado a ser assim.

A família começou o trabalho, a escola acrescentou alguma decoração, a religião tratou do invisível, a televisão vendeu-nos necessidades e as redes sociais terminaram a obra entregando ao algoritmo os nossos gostos, medos e inseguranças.

Depois olhamos para o resultado e chamamos-lhe personalidade.

É uma operação extraordinária: transformamos influências em identidade, condicionamentos em princípios e opiniões herdadas em convicções pessoais. Em seguida defendemos tudo com uma paixão que faria inveja a alguém que realmente tivesse pensado no assunto.

Talvez pensar por conta própria comece quando fazemos uma auditoria àquilo que chamamos “eu”.

Quem te ensinou o que é sucesso? Quem decidiu o que é bonito? Quem te apresentou os teus inimigos? Quem determinou o que é vergonhoso? Quem te ensinou aquilo que devias admirar?

São perguntas perigosas porque ameaçam uma fantasia muito querida: a de sermos autores absolutos da nossa consciência.

A internet tornou tudo ainda mais interessante. Democratizou o conhecimento e, de brinde, democratizou a certeza. Agora qualquer pessoa pode assistir a um vídeo de oito minutos, aprender três palavras complicadas, encontrar cinco pessoas que concordam com ela e concluir que descobriu aquilo que universidades inteiras ainda discutem.

Conhecimento exige estudo.
Convicção exige Wi-Fi.

Muita gente diz “eu pesquisei” quando, na verdade, pesquisou até encontrar alguém que confirmasse aquilo que já queria acreditar. Não procurou informação; procurou munição.

Isso não é pensamento crítico.
É contratar testemunhas para o próprio preconceito.

O algoritmo agradece.

Mas pensar por conta própria também não signif**a discordar de toda a gente. Há quem tenha transformado a contradição numa personalidade. Se alguém diz branco, diz preto. Se a maioria acredita numa coisa, rejeita-a imediatamente. Depois chama isso de independência intelectual.

Não é.

Às vezes é apenas contrarianismo com autoestima.

A verdadeira autonomia pode ser muito menos espectacular: concordar com a maioria quando a maioria está certa, dizer “não sei” sem sentir vergonha e mudar de opinião sem convocar uma conferência de imprensa.

A parte mais difícil talvez seja admitir que podemos ser inteligentes num assunto e perfeitamente ingénuos noutro. Podemos perceber propaganda política e cair em propaganda comercial. Podemos ensinar pensamento crítico e ser manipulados emocionalmente. Podemos conhecer o funcionamento das redes sociais e continuar a oferecer-lhes horas da nossa vida gratuitamente.

Ninguém é permanentemente lúcido.
A consciência não é uma medalha. É uma lâmpada com mau contacto.

Quanto mais convencidos estamos de que ninguém consegue manipular-nos, mais difícil se torna perceber quando estamos a ser manipulados.

O manipulador competente nem sempre diz “acredita em mim”.

Às vezes diz:
“Questiona tudo.”

Depois entrega-te exactamente as respostas que querias encontrar.

E tu, orgulhoso da tua liberdade intelectual, agradeces-lhe por te deixar pensar.

Por isso, desconfia de mim. Desconfia de quem fala com certeza absoluta. Desconfia de quem oferece respostas antes de compreender as perguntas. E desconfia de ti quando uma ideia te agrada depressa demais, sobretudo quando confirma aquilo que já querias acreditar.

Pensar por conta própria não é eliminar todas as influências. Isso é impossível.

É reconhecê-las.
Descobrir quem fala dentro da nossa cabeça.
E ter coragem de expulsar algumas vozes que confundimos com a nossa.

Agora, se depois de leres este texto estiveres a pensar exactamente como eu, tenho uma notícia terrível:

o manual funcionou.

Endereço

Luanda
98032

Website

Notificações

Seja o primeiro a receber as novidades e deixe-nos enviar-lhe um email quando Lixeratura Reversa publica notícias e promoções. O seu endereço de email não será utilizado para qualquer outro propósito, e pode cancelar a subscrição a qualquer momento.

Atalhos

Compartilhar