11/05/2026
QUANDO A CRÍTICA NÃO ANULA A ADMIRAÇÃO
— Resumo da conversa com o Dr. Carlos Cabaça
Por: Pedro Bars aka Yadhistóteles
Ontem fiz alguns posts envolvendo o conhecido Dr. Carlos Cabaça, nos quais, em síntese, defendi que determinadas matérias de natureza jurídica exigem maior rigor técnico e científico na forma como são transmitidas ao público. Diante da repercussão que o assunto gerou, considero importante fazer este esclarecimento público, não apenas por uma questão de honestidade intelectual, mas também por respeito à verdade e à maturidade do debate político.
O Dr. Carlos e eu temos um amigo em comum que, ao aperceber-se da dimensão que os posts tomaram seja nos meus perfis como na minha página (Lixeratura Reversa), passou-me o seu contacto a meu pedido. Enviei-lhe uma mensagem e, com uma humildade rara nos tempos de hoje, prontamente ligou-me. Tivemos uma conversa com mais de duas dezenas de minutos, porém serena e esclarecedora.
Naturalmente, não posso reproduzir tudo o que foi dito, mas a essência do pensamento dele foi mais ou menos esta:
“Irmão, compreendo perfeitamente o teu posicionamento, assim como compreendo aqueles que apareceram nos teus posts em minha defesa. Faço intervenção social e comentário político desde 2008, e ao longo desses anos aprendi que comunicar com o povo exige mais do que domínio técnico; exige adaptação do discurso. A minha maior preocupação é que a mensagem seja compreendida por todas as classes sociais. A zungueira, o taxista, o camponês, o estudante universitário e o académico devem conseguir extrair sentido do que digo.
Contudo, reconheço que existem contextos em que determinadas análises exigem maior densidade jurídica. E, se acompanhas o meu trabalho, sabes que em muitos assuntos gerais faço intervenções mais técnicas. Porém, em casos que se encontram em fase de instrução preparatória, devo agir com máxima prudência. Um parecer jurídico emitido publicamente por um advogado pode influenciar a percepção social sobre o caso, interferir indirectamente no andamento processual ou até criar constrangimentos éticos perante a Ordem dos Advogados. O meu silêncio técnico, em certas ocasiões, não nasce da ignorância, mas da responsabilidade.”
Sobre a postura no debate televisivo, explicou ainda:
“Debate é debate. Não é uma conversa de sala de estar. A dinâmica do contraditório muitas vezes implica interrupções, sobreposição de falas e disputa pela palavra. Isso pode soar agressivo fora do contexto do debate político, mas dentro dele é uma prática recorrente.”
Depois dessa conversa, senti a necessidade moral de esclarecer aos meus seguidores que não existe, da minha parte, qualquer animosidade contra o Dr. Carlos Cabaça. Pelo contrário. Reitero publicamente a admiração que tenho pela sua coragem cívica, pela frontalidade intelectual e pela humildade com que se coloca ao serviço das causas populares. Num país onde muitos intelectuais preferem o conforto do silêncio à turbulência da verdade, homens que assumem o risco da exposição pública tornam-se trincheiras humanas da consciência nacional.
Também quero dirigir-me àqueles que, sem me conhecerem, passaram a acusar-me de ser “do Sistema”, “mandado pelo MPLA” ou filho de “marimbondos” corruptos apenas pelo facto de eu residir nos Estados Unidos.
Estão profundamente enganados.
Sou filho de uma zungueira e de um antigo combatente que, nos últimos anos da sua vida laboral, trabalhou como segurança e cargueiro de armazém. Não venho da aristocracia do poder. Venho da geografia do sacrifício. Conheço o peso da humilhação social, o preço do pão que já nem cabe no meu poema de tão alto que está e a violência silenciosa da desigualdade.
E, tal como o Dr. Cabaça costuma dizer:
“Tenho valores, não tenho preço.”
Nunca serei do MPLA. Não por ódio irracional, mas por convicção histórica e consciência política. Entendo que o MPLA, enquanto estrutura de poder, transformou-se num mecanismo de bloqueio do desenvolvimento nacional, numa máquina de reprodução das desigualdades e numa espécie de cancro que consome as possibilidades de progresso do nosso país.
Ainda assim, é importante lembrar que a luta política não deve degenerar em fanatismo emocional. Uma sociedade intelectualmente saudável constrói-se através da crítica, não da idolatria; através do contraditório, não de acusações infundadas ou ofensas morais. Democracia não é unanimidade. É convivência civilizada entre divergências.
Por isso, aproveito para fazer um apelo sincero aos jovens mais rígidos na crítica:
Não transformem a indignação em arrogância.
Não substituam argumentos por insultos.
Não matem o debate em nome da própria razão.
Discordar não é trair.
Questionar não é sabotar.
Criticar não é ser inimigo.
Podemos defender as mesmas causas e, ainda assim, divergir nos métodos, na linguagem ou na análise de determinados assuntos. Isso é maturidade.
Não me digam: “Vá lá e faça melhor!”.
Eu não sou analista político nem comentador televisivo. Sou escritor. Sou cronista. Sou poeta. O meu campo de batalha é a palavra escrita. A minha arma é o texto. E é através da escrita que procuro contribuir para a consciencialização social, para a elevação do pensamento crítico e para a construção de uma Angola mais justa.
No fundo, a luta é a mesma:
Tirar o MPLA do poder e dar dignidade a este povo que tanto sofre.
Ao Dr. Carlos Cabaça, quero mais uma vez deixar público o profundo respeito e admiração que nutro pelo seu trabalho como analista político e activista social. Mas, acima de tudo, pela conversa que tivemos hoje. Ela permitiu-me perceber, com ainda maior nitidez, o quão humilde, acessível e genuinamente humano és.
Espero sinceramente que continues a ser essa voz firme que representa milhares de jovens e não só, que permanecem ávidos pela tão sonhada alternância política, pela justiça social e por uma Angola mais digna para todos.
Num tempo em que muitos se escondem atrás da neutralidade conveniente, homens como tu escolhem o desconforto da verdade. E isso merece reconhecimento.
Um bem-haja.
Um forte abraço.
E estamos juntos, meu irmão.
Vou tratar das diligências para fazer-te chegar o livro da minha co-autoria com a minha esposa, intitulado “MEU PRIMEIRO DIA NO INFERNO” conforme já acertamos.
Mais uma vez, a minha sincera gratidão por tudo.