Lixeratura Reversa

M-Arte Angola é uma empresa de produção de eventos culturais e criação de conteúdos artísticos essencialmente poesia e música acústica.

QUANDO A CRÍTICA NÃO ANULA A ADMIRAÇÃO  — Resumo da conversa com o Dr. Carlos CabaçaPor: Pedro Bars aka Yadhistóteles On...
11/05/2026

QUANDO A CRÍTICA NÃO ANULA A ADMIRAÇÃO
— Resumo da conversa com o Dr. Carlos Cabaça

Por: Pedro Bars aka Yadhistóteles

Ontem fiz alguns posts envolvendo o conhecido Dr. Carlos Cabaça, nos quais, em síntese, defendi que determinadas matérias de natureza jurídica exigem maior rigor técnico e científico na forma como são transmitidas ao público. Diante da repercussão que o assunto gerou, considero importante fazer este esclarecimento público, não apenas por uma questão de honestidade intelectual, mas também por respeito à verdade e à maturidade do debate político.

O Dr. Carlos e eu temos um amigo em comum que, ao aperceber-se da dimensão que os posts tomaram seja nos meus perfis como na minha página (Lixeratura Reversa), passou-me o seu contacto a meu pedido. Enviei-lhe uma mensagem e, com uma humildade rara nos tempos de hoje, prontamente ligou-me. Tivemos uma conversa com mais de duas dezenas de minutos, porém serena e esclarecedora.

Naturalmente, não posso reproduzir tudo o que foi dito, mas a essência do pensamento dele foi mais ou menos esta:

“Irmão, compreendo perfeitamente o teu posicionamento, assim como compreendo aqueles que apareceram nos teus posts em minha defesa. Faço intervenção social e comentário político desde 2008, e ao longo desses anos aprendi que comunicar com o povo exige mais do que domínio técnico; exige adaptação do discurso. A minha maior preocupação é que a mensagem seja compreendida por todas as classes sociais. A zungueira, o taxista, o camponês, o estudante universitário e o académico devem conseguir extrair sentido do que digo.

Contudo, reconheço que existem contextos em que determinadas análises exigem maior densidade jurídica. E, se acompanhas o meu trabalho, sabes que em muitos assuntos gerais faço intervenções mais técnicas. Porém, em casos que se encontram em fase de instrução preparatória, devo agir com máxima prudência. Um parecer jurídico emitido publicamente por um advogado pode influenciar a percepção social sobre o caso, interferir indirectamente no andamento processual ou até criar constrangimentos éticos perante a Ordem dos Advogados. O meu silêncio técnico, em certas ocasiões, não nasce da ignorância, mas da responsabilidade.”

Sobre a postura no debate televisivo, explicou ainda:

“Debate é debate. Não é uma conversa de sala de estar. A dinâmica do contraditório muitas vezes implica interrupções, sobreposição de falas e disputa pela palavra. Isso pode soar agressivo fora do contexto do debate político, mas dentro dele é uma prática recorrente.”

Depois dessa conversa, senti a necessidade moral de esclarecer aos meus seguidores que não existe, da minha parte, qualquer animosidade contra o Dr. Carlos Cabaça. Pelo contrário. Reitero publicamente a admiração que tenho pela sua coragem cívica, pela frontalidade intelectual e pela humildade com que se coloca ao serviço das causas populares. Num país onde muitos intelectuais preferem o conforto do silêncio à turbulência da verdade, homens que assumem o risco da exposição pública tornam-se trincheiras humanas da consciência nacional.

Também quero dirigir-me àqueles que, sem me conhecerem, passaram a acusar-me de ser “do Sistema”, “mandado pelo MPLA” ou filho de “marimbondos” corruptos apenas pelo facto de eu residir nos Estados Unidos.

Estão profundamente enganados.

Sou filho de uma zungueira e de um antigo combatente que, nos últimos anos da sua vida laboral, trabalhou como segurança e cargueiro de armazém. Não venho da aristocracia do poder. Venho da geografia do sacrifício. Conheço o peso da humilhação social, o preço do pão que já nem cabe no meu poema de tão alto que está e a violência silenciosa da desigualdade.

E, tal como o Dr. Cabaça costuma dizer:
“Tenho valores, não tenho preço.”

Nunca serei do MPLA. Não por ódio irracional, mas por convicção histórica e consciência política. Entendo que o MPLA, enquanto estrutura de poder, transformou-se num mecanismo de bloqueio do desenvolvimento nacional, numa máquina de reprodução das desigualdades e numa espécie de cancro que consome as possibilidades de progresso do nosso país.

Ainda assim, é importante lembrar que a luta política não deve degenerar em fanatismo emocional. Uma sociedade intelectualmente saudável constrói-se através da crítica, não da idolatria; através do contraditório, não de acusações infundadas ou ofensas morais. Democracia não é unanimidade. É convivência civilizada entre divergências.

Por isso, aproveito para fazer um apelo sincero aos jovens mais rígidos na crítica:

Não transformem a indignação em arrogância.
Não substituam argumentos por insultos.
Não matem o debate em nome da própria razão.

Discordar não é trair.
Questionar não é sabotar.
Criticar não é ser inimigo.

Podemos defender as mesmas causas e, ainda assim, divergir nos métodos, na linguagem ou na análise de determinados assuntos. Isso é maturidade.

Não me digam: “Vá lá e faça melhor!”.
Eu não sou analista político nem comentador televisivo. Sou escritor. Sou cronista. Sou poeta. O meu campo de batalha é a palavra escrita. A minha arma é o texto. E é através da escrita que procuro contribuir para a consciencialização social, para a elevação do pensamento crítico e para a construção de uma Angola mais justa.

No fundo, a luta é a mesma:
Tirar o MPLA do poder e dar dignidade a este povo que tanto sofre.

Ao Dr. Carlos Cabaça, quero mais uma vez deixar público o profundo respeito e admiração que nutro pelo seu trabalho como analista político e activista social. Mas, acima de tudo, pela conversa que tivemos hoje. Ela permitiu-me perceber, com ainda maior nitidez, o quão humilde, acessível e genuinamente humano és.

Espero sinceramente que continues a ser essa voz firme que representa milhares de jovens e não só, que permanecem ávidos pela tão sonhada alternância política, pela justiça social e por uma Angola mais digna para todos.

Num tempo em que muitos se escondem atrás da neutralidade conveniente, homens como tu escolhem o desconforto da verdade. E isso merece reconhecimento.

Um bem-haja.
Um forte abraço.
E estamos juntos, meu irmão.

Vou tratar das diligências para fazer-te chegar o livro da minha co-autoria com a minha esposa, intitulado “MEU PRIMEIRO DIA NO INFERNO” conforme já acertamos.

Mais uma vez, a minha sincera gratidão por tudo.

— “Devido os constantes bloqueios que fazes aos teus seguidores, não te incomoda o facto de, por muitos, seres visto com...
11/05/2026

— “Devido os constantes bloqueios que fazes aos teus seguidores, não te incomoda o facto de, por muitos, seres visto como arrogante?”

— “Não. Porque, com o tempo, aprendi uma coisa importante: toda pessoa que confronta a superficialidade acaba, inevitavelmente, confundida com arrogância.

Vivemos numa sociedade onde a verdade costuma ser confortável apenas quando não obriga ninguém a pensar. Então, quando alguém fala de forma mais directa, crítica ou consciente, é normal que seja visto como prepotente ou arrogante. Faz parte.

Mas eu sei exactamente para quem escrevo.
Mesmo sendo uma escrita pública, nunca escrevo para agradar multidões. Sempre escrevo para alcançar mentes específicas, pessoas capazes de interpretar para além da emoção imediata.

Por isso sou muito selectivo com as energias que permito próximas de mim. Bloqueio muita gente, sim e faço questão de deixar isso bem claro pros meus seguidores, não por intolerância ao pensamento diferente, mas por desrespeito e também porque aprendi que paz mental também é inteligência emocional.

Hoje tenho plena consciência do tipo de pessoas com quem quero construir pontes… e do tipo com quem prefiro apenas manter distância.

E sinceramente? Os inteligentes reconhecem valor sem precisar de barulho. Eu percebo isso diariamente pelas mensagens que recebo, pelos comentários que surgem, pelo impacto silencioso que certas reflexões minhas causam nas pessoas certas.

No fundo, nunca me preocupei muito em ser compreendido por todos.
Preocupo-me mais em não me trair para ser aceite. Nunca tive a pretensão de ser uma pessoa mais conhecida do que já sou, por isso não engulo sapos só pra parecer bem na fotografia.

Eu, Yadhiro, compositor amplamente conhecido no movimento de batalhas de rap, dos primeiros e dos melhores nisto, sobre ...
11/05/2026

Eu, Yadhiro, compositor amplamente conhecido no movimento de batalhas de rap, dos primeiros e dos melhores nisto, sobre a mais recente polémica envolvendo o nome do Fly Skuad e a RRPL, digo o seguinte:
— “Os gladiadores só os comparo com os políticos em podridão da alma. Para mim, quanto mais são, menos valem.”

Último posicionamento sobre a problemática que levantei em torno do Dr. Carlos Cabaça relativamente à diferença entre CO...
10/05/2026

Último posicionamento sobre a problemática que levantei em torno do Dr. Carlos Cabaça relativamente à diferença entre COMENTÁRIO TÉCNICO e LINGUAGEM TÉCNICA.

Tanto aqui na minha página como lá nos meus perfis (Pedro Bars e Yadhiro Barroso) muitos comentários de internautas sugerindo que eu “deixe de escrever e vá falar no lugar dele”, ou que tenha a coragem de dizer presencialmente aquilo que escrevo tal como ele faz. Mas a questão nunca foi essa.

Eu não sou comentador televisivo. Sou escritor e cronista.
O meu campo de intervenção é a escrita. É através dela que procuro contribuir para a conscientização social, para a elevação do pensamento crítico e para o exercício da cidadania. Cada indivíduo intervém na esfera pública a partir da linguagem que domina melhor.

Aliás, o próprio Dr. Carlos Cabaça construiu parte da sua relevância pública justamente por exercer uma crítica constante (e muitas vezes necessária) aos actores que governam e influenciam a sociedade. Portanto, é perfeitamente legítimo que, dada a dimensão da sua exposição mediática e o impacto das suas intervenções, ele também seja alvo de análises críticas por parte de quem acompanha e valoriza o seu trabalho.

E aqui importa fazer uma distinção importante: crítica construtiva não é hostilidade; é participação intelectual no debate público.

Infelizmente, ainda existe entre nós uma cultura muito emocional de interpretação, quase sempre assente numa lógica futebolística: “quem critica o jogador da minha equipa que marca golos automaticamente apoia a equipa adversária”. Mas o pensamento crítico não funciona assim. Democracias saudáveis amadurecem justamente quando figuras públicas deixam de ser endeusadas e passam a ser integradas num ecossistema de debate, contraponto e aperfeiçoamento contínuo.

Usando a mesma metáfora futebolística: sugerir melhorias ao nosso “ponta de lança” não significa desejar o seu fracasso ou a derrota da equipa. Pelo contrário. Significa querer que ele refine a finalização, amplie a visão de jogo e marque ainda mais golos, e golos bonitos.

No fim do dia, elevar a qualidade do discurso público é uma vitória colectiva.
Quanto mais sofisticado e coerente for o debate, mais ganha a juventude angolana, mais ganha a cidadania e mais amadurece a nossa cultura política.

Não sei quais as equipas que estão a jogar hoje, só estou já a ver os golos.Essa é qual equipa que estão a lhe ensaboar ...
10/05/2026

Não sei quais as equipas que estão a jogar hoje, só estou já a ver os golos.
Essa é qual equipa que estão a lhe ensaboar assim? 😂😂😂

BICEFALIA MATRIMONIAL— República Ou Dinastia?João Lourenço e a Engenharia da Continuidade.Por: Pedro Bars aka Yadhistóte...
10/05/2026

BICEFALIA MATRIMONIAL
— República Ou Dinastia?
João Lourenço e a Engenharia da Continuidade.

Por: Pedro Bars aka Yadhistóteles

Fontes consideradas credíveis sustentam que a Primeira-Dama da República, Ana Dias Lourenço, terá estado recentemente em Portugal tratando da renúncia à nacionalidade portuguesa, passando a deter exclusivamente a nacionalidade angolana. A informação, tornada pública na última edição do programa Conversas Essenciais, da Rádio 96.1 FM, surge associada a uma hipótese política que começa a circular com crescente intensidade nos bastidores do poder: a possibilidade de Ana Dias Lourenço vir a encabeçar a lista do MPLA nas eleições gerais de 2027.

A leitura política por detrás dessa movimentação é evidente. A Constituição angolana impede a candidatura à Presidência da República de cidadãos com dupla nacionalidade. Logo, uma eventual renúncia à cidadania portuguesa eliminaria um dos principais obstáculos jurídicos à construção de uma candidatura presidencial.

Em paralelo, João Lourenço anunciou ontem, Sábado, a intenção de recandidatar-se à liderança do MPLA no próximo congresso do partido. Embora existam manifestações públicas de pretensões concorrentes (como as do General Higino Carneiro, do engenheiro António Venâncio e do professor José Carlos de Almeida), a experiência política angolana demonstra que, dentro da engrenagem do partido-Estado, candidaturas alternativas raramente sobrevivem ao filtro da máquina partidária. A tendência histórica aponta para a consolidação de uma candidatura única, num modelo de unanimismo político semelhante ao observado nas recentes “eleições” internas da JMPLA e da OMA.

Mas a questão central talvez não esteja apenas na disputa formal pelo poder, e sim na arquitectura da sua preservação.

Em ciência política, regimes de longa duração desenvolvem frequentemente mecanismos de continuidade e manutenção do poder que transcendem a figura individual do líder. Quando o poder deixa de ser apenas um instrumento de governação e passa a funcionar como mecanismo de protecção política, jurídica e até existencial, a alternância torna-se uma ameaça, não uma normalidade democrática. É nesse contexto que surge a hipótese de uma sucessão matrimonial politicamente tutelada.

Se João Lourenço permanecer no controlo absoluto do MPLA, que é o verdadeiro centro do poder angolano, e Ana Dias Lourenço ascender à Presidência da República, Angola poderá assistir a uma configuração política singular: um modelo de bicefalia funcional em que o poder partidário e o poder institucional coexistiriam dentro do mesmo núcleo familiar, criando uma espécie de monarquia republicana informal, onde o Estado e o partido se confundem como espelhos voltados um para o outro. Uma promiscuidade sem antecedentes.

Seria uma engenharia de continuidade política sofisticada: o partido permaneceria nas mãos do “mimoso”; o Estado, sob a condução da figura institucionalmente legitimada. Uma divisão de poder apenas aparente, porque o centro gravitacional continuaria o mesmo.

Gostou?
Partilhe de julgar importante.

Muita gente não compreendeu a crítica que fiz ao Dr. Cabaça.Uma coisa é linguagem técnica. Outra, completamente diferent...
10/05/2026

Muita gente não compreendeu a crítica que fiz ao Dr. Cabaça.

Uma coisa é linguagem técnica. Outra, completamente diferente, é comentário técnico.

Ele comunica bem, tem boa dicção, vocabulário sólido e consegue estruturar o discurso com clareza. Isso nunca esteve em causa.
O ponto é outro.

Quando determinados temas jurídicos surgem num painel onde os restantes participantes não têm formação em Direito, espera-se que o jurista eleve o nível da análise. E elevar o nível, nesse contexto, não significa falar de forma rebuscada nem recorrer constantemente a conectivos como “todavia”, “não obstante” ou “portanto”.

Comentário técnico exige fundamentação.
Exige citar a Lei X, o artigo Y, o diploma Z, o enquadramento legal e, sobretudo, contextualizar juridicamente o assunto para que quem está a ouvir perceba de onde vem a conclusão apresentada.

Isso gera credibilidade.
Isso diferencia opinião de análise especializada.

Porque, no fim do dia, técnica não é ornamentação linguística.
Técnica é sustentação.

O Dr. Carlos Cabaça é pra mim um dos melhores comentadores políticos da actualidade (só perde pro elenco do Conversas Es...
10/05/2026

O Dr. Carlos Cabaça é pra mim um dos melhores comentadores políticos da actualidade (só perde pro elenco do Conversas Essenciais), e essa admiração é algo que já tornei público algumas vezes.
Mas confesso que tem dias que espero dele comentários mais técnicos, a julgar pelas suas várias formações académico-profissionais, e surpreendo-me pela negativa ao ouvir meros comentários de senso comum, a inventar estáticas da cabeça dele… Éh pah, não entendo.
Às vezes faz comentários que qualquer pessoa faria. Entendo que nalguns momentos assume o papel de porta-voz do povo, mas não acho elegante vê-lo a falar como povo. E quando digo “falar como povo” não me refiro ao nível de linguagem porque a linguagem corrente recomenda-se em debate, e toda a vasta audiência o percebe.

Sou muito fã. Espero que na edição do programa de hoje (Equilíbrio) não volte a me decepcionar, como fez na última edição do debate lá na Rádio MFM (Estado da Nação) ao adoptar uma postura e comportamento que, à dado momento, não emprestou seriedade à qualidade do programa.

Nota: Deve evitar se repetir bastante.

Permitam-me ser mais claro:

Uma coisa é linguagem técnica. Outra, completamente diferente, é comentário técnico.

Ele comunica bem, tem boa dicção, vocabulário sólido e consegue estruturar o discurso com clareza. Isso nunca esteve em causa.
O ponto é outro.

Quando determinados temas jurídicos surgem num painel onde os restantes participantes não têm formação em Direito, espera-se que o jurista eleve o nível da análise. E elevar o nível, nesse contexto, não significa falar de forma rebuscada nem recorrer constantemente a conectivos como “todavia”, “não obstante” ou “portanto”.

Comentário técnico exige fundamentação.
Exige citar a Lei X, o artigo Y, o diploma Z, o enquadramento legal e, sobretudo, contextualizar juridicamente o assunto para que quem está a ouvir perceba de onde vem a conclusão apresentada.

Isso gera credibilidade.
Isso diferencia opinião de análise especializada.

Porque, no fim do dia, técnica não é ornamentação linguística.
Técnica é sustentação.

A INGENUIDADE DO SAPIÑALA E O DISCURSO QUE FORTALECEU O MPLA— O Autogolo Político Por: Pedro Bars aka Yadhistóteles O pr...
10/05/2026

A INGENUIDADE DO SAPIÑALA E O DISCURSO QUE FORTALECEU O MPLA
— O Autogolo Político

Por: Pedro Bars aka Yadhistóteles

O problema das declarações do deputado da UNITA, Adriano Sapiñala, contra Abel Chivukuvuku, líder do PRA-JÁ, não reside apenas no conteúdo político das acusações, mas sobretudo no impacto simbólico e estratégico que elas produzem no imaginário colectivo. Em política, a percepção vale quase tanto quanto os factos; por vezes, vale mais. E foi precisamente nesse campo (o da percepção pública) que a oposição saiu fragilizada.

Ao verbalizar aquilo que deveria permanecer no domínio da gestão interna e da prudência estratégica, Sapiñala ofereceu ao MPLA um argumento que o próprio partido dificilmente conseguiria construir com igual eficácia. A mensagem transmitida à sociedade foi devastadora: a de que a UNITA, mesmo tendo conhecimento das suspeitas ligadas ao caso das “térmicas azuis”, ainda assim teria apoiado e legitimado alguém que agora descreve implicitamente como incompatível com os interesses nacionais. É uma contradição que fere a coerência política e alimenta a desconfiança popular.

Na prática, criou-se um paradoxo corrosivo: se Abel Chivukuvuku era, afinal, um “traidor da nação”, por que razão foi considerado apto para ocupar a vice-presidência da República no projecto da Frente Patriótica Unida? E, se não era, por que motivo a UNITA decidiu levantar suspeitas apenas depois do rompimento político? Essas perguntas funcionam como ácido sobre a credibilidade da oposição, porque insinuam oportunismo, incoerência e instrumentalização moral.

A situação já era, por si só, um “telhado de vidro” da própria UNITA. Contudo, ao invés de proteger a estrutura, Sapiñala lançou a pedra de dentro para fora e os estilhaços atingiram todo o edifício político da oposição.

Os políticos mais experientes sabem que a política não é apenas a arte de falar, mas também a ciência de silenciar no momento certo. Há perguntas que não se respondem frontalmente; contornam-se com inteligência estratégica, diplomacia retórica e cálculo institucional. Isso não significa ausência de carácter, mas consciência de que a política é um tabuleiro onde a ingenuidade costuma ser sacrificada antes mesmo da verdade.

Como frequentemente tenho dito, a política é a arte das conveniências. E aquela revelação não era conveniente nem para a UNITA, nem para a estabilidade da própria oposição. Quem insiste em exercer uma frontalidade absoluta num ambiente político altamente táctico corre o risco de transformar sinceridade em autossabotagem. Em teoria, a transparência é virtude; na prática política, quando desacompanhada de estratégia, pode converter-se numa forma sofisticada de imprudência.

É possível que o crescimento do engajamento nas redes sociais tenha criado em Sapiñala a sensação de invulnerabilidade discursiva. Porém, a política real não funciona como os algoritmos digitais: likes não substituem cálculo político, e viralidade não equivale a maturidade estratégica. A sua intervenção acabou por fornecer munições retóricas ao maior adversário, que neste caso é o MPLA, e abrir fissuras públicas num campo que deveria demonstrar unidade.

Agora, com o conflito transferido para a esfera jurídica, ambos os lados tendem a sair desgastados. Quando a oposição transforma divergências internas em confrontos públicos e judiciais, transmite à sociedade uma imagem de fragmentação e instabilidade. E, historicamente, sistemas dominantes beneficiam-se precisamente disso: de opositores divididos, emocionalmente reactivos e politicamente descoordenados.

Gostou?
Partilhe se julgar necessário.

“O PIOR MAL DA HUMANIDADE NÃO É O ÓDIO. É O EGOÍSMO”Por: Pedro Bars  aka Yadhistóteles Há pessoas que passam a vida inte...
10/05/2026

“O PIOR MAL DA HUMANIDADE NÃO É O ÓDIO. É O EGOÍSMO”

Por: Pedro Bars aka Yadhistóteles

Há pessoas que passam a vida inteira a tentar entender por que foram feridas.
“Por que fizeram isso comigo?”
“Por que me traíram?”
“Por que me burlaram?”
“Por que me abandonaram?”
E quase sempre procuram respostas dramáticas, como se o mundo estivesse cheio de vilões maquiavélicos arquitetando destruições emocionais em silêncio. Mas, sinceramente, a realidade costuma ser muito mais simples e muito mais assustadora.

O pior mal da humanidade não é o ódio.
É o egoísmo.

Porque o ódio ainda exige algum tipo de consideração. Quem odeia, pelo menos reconhece tua existência. O egoísta não. O egoísta transforma o outro num detalhe descartável da própria conveniência. E talvez seja exactamente aí que mora a origem da maior parte das dores humanas.

Pára um pouco e pensa nas pessoas que mais te machucaram.
Quase nenhuma delas provavelmente acordou e disse:
“Hoje vou destruir emocionalmente alguém.”

Não.
Elas só estavam ocupadas demais com elas mesmas.

Queriam prazer.
Queriam atenção.
Queriam fugir da solidão.
Queriam ter dinheiro.
Queriam vencer.
Queriam ter razão.
Queriam ser aceites.
Queriam alimentar o próprio vazio.

E, no meio disso, passaram por cima de alguém sem sequer diminuir a velocidade, ou melhor, atropelaram os sentimentos de alguém.

Essa é a tragédia mais comum da condição humana: as pessoas raramente são más de forma consciente; elas apenas são profundamente indiferentes ao sofrimento que causam quando seus desejos estão em primeiro lugar.

O ser humano possui uma habilidade extraordinária de justificar os próprios actos quando eles favorecem seus interesses. É quase um mecanismo automático. Quando alguém magoa outra pessoa para conseguir algo que deseja, dificilmente se vê como cruel. Na própria narrativa interna, sempre existe uma desculpa confortável:
“Eu precisava pensar em mim.”
“Foi sem intenção.”
“A vida continua.”
“Cada um cuida de si.”

E é verdade. Cada um cuida de si.
O problema começa quando esse princípio vira uma espécie de religião.

Vivemos numa época que romantizou o egoísmo e lhe deu nomes sofisticados. Chamam de “amor-próprio”, “prioridade”, “auto preservação”. Claro que cuidar de si mesmo é necessário. O problema é quando alguém usa o próprio bem-estar como licença moral para ferir os outros sem culpa.

Há pessoas que confundem liberdade com ausência de responsabilidade emocional.
Querem entrar na vida dos outros sem pedir licença e sair sem deixar explicações. Querem receber compreensão infinita enquanto distribuem negligência.

Estudos comprovam que ser humano suporta melhor o conflito do que a indiferença. O conflito ainda prova que existimos no universo emocional do outro. A indiferença, não. A indiferença é um apagamento silencioso.

É por isso que certas feridas demoram tanto a cicatrizar. Não foi só o que fizeram contigo; foi a percepção brutal de que tua dor não teve peso suficiente para interromper os desejos de alguém.

Num mundo dominado pelo ego, empatia virou uma forma rara de inteligência espiritual.

Talvez por isso as pessoas mais inesquecíveis não sejam necessariamente as mais brilhantes, nem as mais fortes, nem as mais ricas. São aquelas que, em meio ao caos dos próprios problemas e dificuldades ainda conseguem ter empatia para considerar o sentimento do próximo.

Gostou?
Partilhe se julgar importante.

Para quem dizia que para a sua sucessão tinha de ser um menos cansado do que ele, então rejuvenesceu?
09/05/2026

Para quem dizia que para a sua sucessão tinha de ser um menos cansado do que ele, então rejuvenesceu?

Endereço

Luanda
98032

Website

Notificações

Seja o primeiro a receber as novidades e deixe-nos enviar-lhe um email quando Lixeratura Reversa publica notícias e promoções. O seu endereço de email não será utilizado para qualquer outro propósito, e pode cancelar a subscrição a qualquer momento.

Compartilhar