14/09/2026
“QUEM EXACTAMENTE SATANÁS PENSAVA QUE JESUS ERA?”
Por: YADHISTÓTELES.
Esta crônica tem o patrocínio da Agrogebil.
Há perguntas que não são feitas porque sejam difíceis. São evitadas porque são simples demais. E algumas perguntas, quando finalmente encontram coragem para sair da boca, parecem irreverentes apenas porque a nossa fé passou tanto tempo sem ser interrogada.
Por exemplo: quem exactamente Satanás pensava que Jesus era?
Não estou a perguntar quem Jesus era. Isso já sabemos. Ou pelo menos julgamos saber.
Filho de Deus. Messias. Salvador. Verbo encarnado. Deus feito homem… Tudo isso aprendemos depois. Mas há uma coisa curiosa no episódio do deserto.
Jesus está sozinho.
Segundo os Evangelhos, depois do baptismo, o Espírito conduz Jesus ao deserto, onde permanece quarenta dias (e quarenta noites).
Então aparece Satanás e conversa com ele. Não é uma aparição silenciosa. Não é apenas uma tentação abstracta. Existe diálogo. Satanás pergunta, Jesus responde, Satanás insiste, Jesus recusa, Satanás muda de estratégia e Jesus continua a responder. É quase uma entrevista de emprego entre o céu e o inferno.
Só que existe um problema: quem estava a tomar notas?
Porque Mateus e Lucas contam-nos a conversa e fazem-no com uma precisão extraordinária. “Se és Filho de Deus…” Essa frase é particularmente interessante.
Se Satanás já soubesse exactamente quem Jesus era, até porque ambos estiveram juntos desde antes da fundação do mundo, por que perguntar? A questão poderia ser uma provocação, uma tentativa de o levar a demonstrar aquilo que acabara de ser declarado sobre ele. Também é possível que Satanás soubesse alguma coisa, mas não compreendesse inteiramente o mistério que estava diante dele.
E aqui começa o labirinto.
Porque nós, leitores modernos, entramos naquela cena carregando dois mil anos de cristologia. Entramos no deserto sabendo o final da história. Satanás não tinha esse privilégio. Ele não estava a ler o Evangelho. Estava diante de um homem. Um homem com fome. Um homem que acabara de ser baptizado. Um homem sobre quem uma voz tinha dito: “Este é o meu Filho amado.”
E pode ser que a tentação tenha consistido precisamente em descobrir o que signif**ava aquela declaração.
Se és Filho de Deus, transforma pedras em pão.
Se és Filho de Deus, atira-te daqui.
Se és Filho de Deus, faça-me um acto de adoração.
Repara na lógica. Satanás não começa por dizer: “Prova que és Deus.” Ele diz: “Se és Filho de Deus…”
Como quem diz: então demonstra. Usa o teu poder. Faz um milagre. Mostra-nos quem és.
E talvez a maior tentação de Jesus não fosse transformar pedras em pão. Poderia estar na própria necessidade de provar a sua identidade.
Existe uma doença humana que atravessa séculos: quando alguém duvida de quem somos, sentimos necessidade de demonstrar. O rico mostra o dinheiro, o poderoso mostra o poder, o inteligente mostra a inteligência, o religioso mostra a santidade, o artista mostra o talento e o homem inseguro exibe precisamente aquilo que mais teme perder.
Jesus, naquele deserto, parece recusar essa lógica. Não precisa de transformar pedra em pão para provar que é Filho. Não precisa de saltar do templo para provar que Deus o protegerá. Não precisa de ajoelhar diante de Satanás para receber aquilo que, segundo a narrativa bíblica, já lhe pertence.
Então aparece uma pergunta ainda mais desconfortável: Satanás estava a tentar destruir Jesus ou estava a tentar descobrir Jesus?
As duas coisas podem caber na mesma cena. A tentação também pode ser entendida como um teste, uma tentativa de descobrir os limites daquele homem. Se Jesus fosse apenas um homem extraordinário, as tentações poderiam funcionar. Fome? Pão. Vaidade? Espectáculo. Poder? Domínio. Três tentações que continuam a governar uma quantidade assustadora de seres humanos.
Mas Jesus recusa as três.
E chegamos à parte que mais me intriga.
Se Jesus estava sozinho com Satanás, quem contou aos evangelistas (Lucas e Mateus) o que foi dito?
Essa pergunta parece pequena, mas abre uma porta enorme.
Historicamente, não temos uma gravação. Não temos uma testemunha identif**ada. Não temos um escriba escondido atrás de uma pedra. Não temos um terceiro personagem apresentado pelo texto. Então como é que aquela conversa chegou até nós?
A primeira possibilidade é a mais simples: Jesus contou.
Depois do acontecimento, poderia ter relatado aos discípulos aquilo que aconteceu. Os discípulos transmitiram a tradição, e essa tradição chegou posteriormente aos Evangelhos.
Outra possibilidade é que o episódio tenha circulado oralmente entre os primeiros cristãos antes de ser colocado por escrito.
Também existe a possibilidade de Mateus e Lucas terem recebido uma tradição teológica já desenvolvida e incorporado essa tradição nos seus relatos.
E existe ainda a explicação da fé: Deus revelou aos autores aquilo que eles precisavam de saber.
Mas há uma diferença importante entre essas respostas. Uma é histórica. Outra é tradicional. Outra é literária. Outra é teológica. E nenhuma delas é explicitamente explicada pelo próprio texto.
O Evangelho simplesmente abre a porta do deserto. Nós entramos. Ouvimos Satanás falar. Ouvimos Jesus responder. Depois o narrador fecha a porta.
Fim da cena.
E nós aceitamos.
Aceitamos porque fomos educados para não perguntar quem estava atrás da câmara.
Mas o meu estilo de escrita que chamo de Lixeratura Reversa nasceu exactamente para isso: virar o texto ao contrário.
Não para destruir a história, mas para descobrir o que acontece quando fazemos à história as perguntas que ela não esperava.
Porque há uma coisa que sempre achei curiosa na Bíblia: muitas vezes sabemos o que aconteceu, mas não sabemos como alguém soube que aconteceu.
Isso não torna necessariamente a narrativa falsa. Torna-a digna de investigação.
É diferente.
Uma coisa é dizer: “Isso não aconteceu.”
Outra coisa é perguntar: “Como é que sabemos?”
A primeira fecha a conversa. A segunda abre.
E essa é uma pergunta que deveríamos fazer mais vezes: como sabemos? Quem viu? Quem ouviu? Quem contou? Quem escreveu? Quem transmitiu? Quem interpretou? E, sobretudo, o que já acrescentámos à história sem perceber que acrescentámos?
Porque entre o acontecimento e o livro existe sempre uma estrada. Nessa estrada existem memórias, testemunhas, tradições, interpretações, traduções, comunidades e escritores.
A fé pode atravessar essa estrada. A dúvida também. Nenhuma das duas precisa de matar a outra.
Agora volto ao deserto.
Jesus está diante de Satanás. Satanás olha para ele e diz: “Se és Filho de Deus…”
Eu fico preso nessa frase.
Porque Satanás pode não estar apenas a tentar Jesus. Pode estar a tentar compreender que espécie de Filho de Deus está diante dele. Um rei? Um profeta? Um messias? Um homem? Deus? Uma combinação que nenhum dos dois, naquele momento, estava disposto a explicar?
E existe ainda o silêncio do narrador.
O narrador conta-nos a conversa, mas não nos conta quem estava a ouvir.
Surge então a pergunta que provavelmente nunca aparecerá numa catequese: se Jesus estava sozinho com Satanás, quem contou aos evangelistas o que foi dito?
Pode ter sido Jesus. Pode ter sido uma tradição oral. Pode ter sido uma construção teológica. Pode ter sido revelação. Pode ser uma questão que nunca conseguiremos resolver historicamente.
Mas existe uma possibilidade mais fascinante: a pergunta não é apenas quem contou a conversa. A pergunta é por que precisámos de uma conversa que ninguém testemunhou para explicar quem Jesus era.
E é aí que o deserto deixa de ser apenas um lugar geográfico e passa a ser um lugar dentro da própria narrativa.
Um lugar onde até a certeza tem fome.
E onde, antes de perguntarmos se Satanás conhecia Jesus, deveríamos perguntar se nós conhecemos.
Porque há dois mil anos continuamos a discutir quem exactamente estava naquele deserto.
E a parte mais desconcertante pode ser esta: Jesus saiu de lá sem precisar de provar quem era.
Nós, entretanto, ainda estamos a tentar provar.