30/01/2026
Hoje com o avanço das IAs, começo a observar peculiaridades, que podem interferir negativamente, nos processos de design. Percebo, por parte de alguns clientes, o uso de inteligência artificial para “ajudar” a responder os briefings.
O discurso começa a soar como uma apropriação de um repertório estético contemporâneo. Nos últimos trabalhos que realizei, o discurso estava muito ligado a uma ideia de design sensível, estética “slow minimal”, tendências gráficas de editoriais poéticos e um certo vocabulário curatorial.
Isso não é um problema em si. Mas levanta a dúvida sobre se estes clientes entendem o valor funcional dessa estética, falo principalmente no contexto acadêmico onde atuo com mais frequência, ou se estão apenas pedindo aquilo que “parece elegante”.
Se a imagem é só uma adesão estilística sem compreensão semântica, corremos o risco de entregar algo que talvez o cliente “goste” visualmente no primeiro momento, mas que não dialoga bem com o seu público, e talvez nem represente de forma clara a mensagem que se pretende passar.
E nesse tipo de trabalho, me refiro aqui aos processos editoriais acadêmicos, mas não somente a eles, o design existe para comunicar e não só “ser bonito”.
Nestes anos em que opero no “mercado acadêmico” percebo que a área da Educação (e boa parte das Humanas) costuma ter uma relação contraditória com o simbólico. Por um lado, o discurso valoriza (em alguns casos) sensibilidade, metáforas, estética do cotidiano, docência como artesania etc. Por outro lado, a leitura visual costuma ser literal, direta, atrelada ao reconhecimento imediato e menos treinada para abstrações abertas.
Isso importa porque: Se você entrega algo excessivamente etéreo, abstrato ou pictórico, a banca (público-alvo inicial) pode interpretar como “decorativo” ou “pouco comunicativo”. Se você entrega algo literal demais, perde a poética que o cliente explicitamente pediu com a “ajuda” da IA.
A tensão é estrutural, a academia quer clareza; o cliente quer poesia.
Como conciliar? Para mim, aqui está o ponto crítico.
A questão é que o briefing, nestes casos, expressa um desejo estético, mas não necessariamente um entendimento comunicacional.
O papel do designer é garantir que a imagem: expresse sensibilidade, mas também comunique a temática da pesquisa, de um jeito que o público consiga decodificar. Se, nestes casos, seguimos literalmente o briefing, corremos o risco de entregar um resultado que agrada visualmente, mas que falha no contexto institucional. Por outro lado, se for literal demais, corre o risco de trair o pedido realizado e cair no óbvio. A síntese é essencial.
O caminho mais consistente é não ignorar o pedido poético, mas ancorar a poética em um elemento conceitual reconhecível, mesmo que sutil. Nestes casos precisamos de um “gancho” interpretativo. Não é literalidade explícita, isso deve continuar proibido. Mas também não é abstração total que não remete a nada identificável. A solução mais sólida é um elemento metafórico, porém reconhecível, que sirva como ponte entre: a pesquisa, a sensibilidade do que foi solicitado pelo cliente e a expectativa da banca.