19/05/2026
Há quem diga que o obsessivo é o funcionário público, aquele que nunca pega sol, bem cinza sabe? Que quase se une com o armário de arquivos.
Realmente há um dia nublado na psique deste sujeito, mas também há o podar que um dia foi realizado de forma que as folhas novas tivessem mais dificuldade em nascer, e em muitos casos os galhos tendem a morrer. E pra fazê-las nascer, ou seja, se haver com seu desejo, gera muita dor, porque se acha indigno do próprio desejo.
É a máxima do se sentir culpado por um crime que não cometeu, se é indigno não posso possuir o que não pode me pertencer.
E assim segue, perambula pela vida, passa por ela, acreditando que esse desejo não pode se manifestar (ah se soubesse o quão incrível é quando deixa de fugir). Mas não é que ele não sente, é que sente tanto que se sustentar de pé é inconscientemente desafiador. Sente a morte enquanto ela não vem, sente o amor, sente a dor do outro e de si mesmo. Porém é aqui que está o pulo do gato: sente tanto porque fantasia tanto.
Já dizia o Oriente: não importa onde estamos nossa mente é nosso lar.
Porque o obsessivo nunca sai de casa, até que…
…Algo seja insuportável.
Que se manifeste no corpo, que sai da mente e passa pelas entranhas, sente neste momento que vai morrer, porque, embora seja comparado a dias nublados, os dias nublados trazem incerteza, medo, frio, chuva. Traz a tempestade e é nessa tempestade que o obsessivo passa a viver.
Então chega ensopado para a análise, começa, cambaleando, dizendo não cada vez que aquela implicação surge. Porque os dias nublados são incertos, ok, o céu está cinza, mas o que virá depois?
Granizo? Tornado? Chuva branda?
Será que vai fazer sol depois de tudo isso?
Tantas perguntas… tantas fantasias.
Mas aí, naquele espaço, vê (se quiser) que pode. Pode desejar, pode estar, que cinza é uma cor e pode ser uma cor muito brilhante e aconchegante como um suéter feito pela avó.
Ali ele passa a sentir a si mesmo, se questionar, se assumir. Se pergunta: que eu queria mesmo? Ah é, me esqueci, mas aqui posso criar a partir do que não sei, porque no fim, sou onde não penso. Penso onde não sou.
E assim pode se autorizar a ser, a viver.