14/09/2016
Desculpe o transtorno, preciso falar do cliente
A Marka para MERCADO
"Conheci ele numa reunião. Essa frase pode parecer romântica se você imaginar alguém de terno mostrando uma planilha do Excel numa cobertura da Avenida Rio Branco. Mas a reunião em questão era a sala de estar dele mesmo, onde toda a sua família se juntava pra ver TV nos anos 1990 – onde fazia-se tudo menos uma reunião. Ele era cliente. Meu amigo era cliente dele. Eu não era cliente mas fui lá por indicação do meu amigo. Ele estava lá. Bufando. Nunca vou me esquecer: a frase era “a gente precisa fazer dinheiro!”, do sócio dele.
Quando meu amigo falava de oportunidades, ele falava de margem de lucro. Quando falava de identidade visual, ele falava de custos. Quando o assunto era rede social, ele estava com a cabeça em mala direta. Os olhos, sempre imensos e ansiosos, deixavam claro que ele não fazia ideia do que estava fazendo. Foi paixão à primeira vista. Só pra mim, acho.
Passamos algumas madrugadas negociando por e-mail ao som de “gostei muito de vocês” e “tá acima das minhas possibilidades”. De lá, migramos pro GTalk. Do GTalk pro WhatsApp da empresa. Do WhatsApp da empresa pro WhatsApp pessoal. Do WhatsApp pessoal pro telefone da minha casa tocando à meia-noite e meia.
Começamos nossa parceria quando ele tinha 20 e eu 23, mas parecia que nossas empresas começavam ali. Vimos todos os slogans. Algumas várias vezes. Fizemos todas as combinações possíveis pro flyer. Jogamos alguns arquivos na lixeira porque o logo tava pequeno. Escolhemos peças aprovadas por e-mail sem confirmar por telefone se o cliente viu mesmo. Gerenciamos juntos Facebook, Instagram, Twitter. Fizemos uma dúzia de parceiros novos e junto com eles o Zé da gráf**a. Fizemos mais de 50 posts juntos só nós dois – acabei de contar. Sofremos com os encalhes, rimos com os buzzes. Viajamos o mundo dividindo o Moleskine. Dos dez anúncios que mais gosto, sete foi ele que aprovou. Os outros três foi ele que criou. Aprendi o que era budget e também o que era deadline, coworking e outras palavras que o Word tá sublinhando de vermelho porque o Word não teve a sorte de ser trabalhado com ele.
Um dia, terminamos. E não foi fácil. Choramos mais que no final de "Mad Men". Mais que no começo de "Obrigado por Fumar". Até hoje, não tem um lugar que eu vá em que alguém não diga, em algum momento: cadê ele? Parece que, pra sempre, ele vai fazer falta. Se ao menos a gente tivesse feito um comercial pra TV, eu penso. Levaria pra sempre ele comigo.
Essa semana, pela primeira vez, vi a peça que a gente fez juntos —não por acaso um post de Facebook. Achei que fosse chorar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido um grande cliente na vida. E de ter esse cliente documentado num post —e em tantos impressos, jingles e spots. Não falta nada."
Texto feito com amor, com um toque de marketing.