08/07/2024
Quando pus os pés em terra estrangeira, carregava apenas cinco euros em contos antigos. A burocracia do SEF me aguardava, vindo eu sozinho do Brasil aos 18 anos, dependendo de um fax do Marítimo para adentrar Portugal. Com aquela escassa quantia, poderia optar por um cartão telefônico para acalmar minha mãe ou uma simples sanduíche. Escolhi tranquilizá-la. O breve telefonema se encerrou junto com meu último euro.
Desembarquei às primeiras luzes da manhã para descobrir que meu voo só decolaria quase à meia-noite. A fome apertava. Caminhei até a Pans & Company do aeroporto e implorei ao atendente por algo para comer. Ele afirmou que tinham de tudo. "Mas estou sem dinheiro", confessei. Seus olhos penetraram os meus, ele se retirou e retornou com uma bandeja contendo uma baguete. "Coma, é por minha conta."
A partir daquele instante, uma chama se acendeu em mim, o desejo ardente de retribuir a gentileza ao próximo. Um gesto tão simples que deixou uma cicatriz profunda em minha alma. Aquela alma bondosa não fazia ideia de quem eu era. Eu jamais soube seu nome, uma lacuna dolorosa em minha história. Todavia, aquele ato altruísta traçou meu destino de forma irrevogável. Desde então, Portugal se tornou meu porto seguro, minha primeira e única escolha.
Pepe
Algumas lembranças tatuam nossos corações.