06/11/2024
𝐌𝐨𝐜̧𝐚𝐦𝐛𝐢𝐪𝐮𝐞: 𝐄𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐒𝐨𝐦𝐛𝐫𝐚 𝐞 𝐄𝐬𝐩𝐞𝐫𝐚𝐧𝐜̧𝐚
Ó Moçambique, cintilante pérola do Índico,
onde o tempo é compasso e o destino, enigma,
tua alma é feita de vozes e águas sempiternas,
uma tapeçaria onde se entrelaçam lendas e povos.
És o relicário dos Changanas e Rhangas,
dos Macondes, Senas, Chuabos e Ndau,
uma plêiade de culturas em constante refrão,
ecos vibrantes de tua grandeza inconspurcada.
Território de Ngungunhanes, Mondlanes,
onde as sombras das palmeiras guardam silentes
as narrativas de insurreição e renúncia,
onde Samora, oráculo de um povo, proclamou:
“𝐴 𝑝𝑎𝑧 𝑛𝑎̃𝑜 𝑒́ 𝑎𝑢𝑠𝑒̂𝑛𝑐𝑖𝑎 𝑑𝑒 𝑐𝑜𝑛𝑓𝑙𝑖𝑡𝑜,
𝑚𝑎𝑠 𝑜 𝑎𝑙𝑣𝑜𝑟𝑒𝑐𝑒𝑟 𝑖𝑛𝑒𝑥𝑜𝑟𝑎́𝑣𝑒𝑙 𝑑𝑎 𝑗𝑢𝑠𝑡𝑖𝑐̧𝑎.”
Em teus rincões, teus filhos aprenderam a persistir,
a carregar nas mãos o peso do teu brilho,
mesmo quando o manto da incerteza pairava sobre o céu.
Mas hoje, Moçambique, tu és terra e relento,
és miragem e abismo, júbilo e desventura.
Nesta quarta-feira de presságios e angústia,
os semblantes estão eclipsados de temor,
uma ansiedade muda que sussurra o amanhã incerto.
𝑂 𝑞𝑢𝑒 𝑠𝑒𝑟𝑎́ 𝑑𝑒 𝑞𝑢𝑖𝑛𝑡𝑎-𝑓𝑒𝑖𝑟𝑎, 𝑑𝑖𝑎 07?
𝑈𝑚 𝑑𝑒𝑠𝑝𝑜𝑛𝑡𝑎𝑟 𝑑𝑒 𝑏𝑎𝑙𝑎𝑠 𝑒 𝑛𝑢𝑣𝑒𝑛𝑠 𝑑𝑒 𝑝𝑜́𝑙𝑣𝑜𝑟𝑎,
𝑜𝑢 𝑢𝑚 𝑖́𝑛𝑓𝑖𝑚𝑜 𝑣𝑖𝑠𝑙𝑢𝑚𝑏𝑟𝑒 𝑑𝑎 𝑝𝑎𝑧 𝑞𝑢𝑒 𝑟𝑒𝑠𝑠𝑜𝑎𝑚𝑜𝑠?
Teus filhos, pátria, de semblantes encovados,
irmãos, que outrora eram um só corpo, agora distantes,
mergulhados na incerteza de uma terra fraturada,
onde o solo deveria receber o suor dos labores,
mas talvez seja manchado pelo sangue do dissenso.
Somos sombras de nossas próprias promessas,
moldados por ânsias que nos despedaçam,
reféns de uma ganância que nos desvirtua.
“𝐼𝑚𝑎𝑔𝑖𝑛𝑒 𝑎𝑙𝑙 𝑡ℎ𝑒 𝑝𝑒𝑜𝑝𝑙𝑒, 𝑙𝑖𝑣𝑖𝑛𝑔 𝑙𝑖𝑓𝑒 𝑖𝑛 𝑝𝑒𝑎𝑐𝑒,”
murmura John Lennon, num sopro longínquo,
um relicário de um sonho etéreo e quimérico.
Esquecemos, Moçambique, que o sol Junho que em ti nasce
carregando consigo a promessa de para sempre brilhar?,
e que a melodia das tuas águas nunca se cala.
Quinta-feira, dia 07, que desventura anuncias?
Os passos ecoam nas ruelas em desassossego,
uns deslizarão entre o aço e o gás lacrimogéneo,
outros, nos recantos, murmurarão preces ao silêncio,
carregando, nos olhos, o peso do indizível.
Mas, na fibra mais íntima de cada coração,
há ainda o anseio por um tempo aprazível,
um Moçambique redimido, libertário, inteiro.
E que venha, por fim, o dia 08,
como o despontar de um horizonte fulgente,
um amanhecer enramado de flores e risos,
onde não se ouvirá o eco de discórdias,
mas o cântico do campo e o trabalho das mãos.
Que se cumpra, então, o destino dos que sonharam,
e que o teu solo seja solo de vida e renovação,
como o fulgor perene de tua alma invencível.
Gutti Mendez