03/09/2019
Esse tópico precisa ser amplamente discutido e divulgado no mercado! Nosso ritmo de trabalho é, muitas vezes, totalmente fora do normal. E vira e mexe tem muita gente que vem falar com orgulho que trabalhou dezenas de horas por semana como se realmente fosse algo bom (para a pessoa). Não deveria haver romantização nenhuma nisso.
Eu também, infelizmente, sonho com trabalho, vivo tão ansioso que isso afeta outras esferas da minha vida, o som de notificações e e-mails me arrepiam e, também exatamente como descrito nesse post, tem dias que minha vida e escolha de profissão simplesmente não fazem mais sentido e tenho vontade de largar tudo e mudar de área.
Uma das minhas metas para esse ano, ainda, é repensar todo meu modelo de negócio de maneira a priorizar minha saúde mental e qualidade de vida. Já está mais do que na cara que não há dinheiro que valha abrir mão disso.
"Chega desse modelo de trabalho que está doente e que adoece. Chega de explorar nosso amor pela profissão e nos fazer acreditar que o preço disso é entregar tudo de nós no trabalho. Chega de desvalorização. Chega de apatia!"
E, nunca é inválido de lembrar: terapias ajudam muito! E não necessariamente algo mais tradicional. Que seja um reiki, um floral, qualquer coisa que você aceite na sua vida.
Nós somos seres humanos, não máquinas de produção.
[Vou repetir o post do ano passado, porque vale lembrar]
"Chorei no banheiro e voltei pra minha mesa"
"Cheguei no ápice de ansiedade e estresse."
"Sempre que consigo dormir, sonho com o trabalho."
"A minha única vontade é de sumir."
"Estou física e mentalmente destroçada."
Algumas das frases acima são alguns trechos de depoimentos preocupantes que tenho recebido por aqui.
Já a última da lista, é a frase que Matsuri Takahashi postou em uma rede social, semanas antes de se lançar da janela de onde morava, no natal de 2015.
O caso, que vale ser lembrado, está diretamente relacionado à rotina exaustiva de trabalho que ela levou durante 7 meses na agência de publicidade Dentsu, no Japão.
Matsuri fazia em média 105 horas extras por mês e havia sido obrigada pela empresa a registrar que trabalhava dentro da quantidade de horas permitida.
Em meio a uma chuva de infrações às leis trabalhistas, a empresa foi responsabilizada legalmente pela morte da jovem de 24 anos.
Agora, pensemos, qual a diferença no teor da frase de Matsuri em relação às frases desses depoimentos?
Nenhuma.
O cansaço, a baixa auto estima, a ansiedade, o desespero, a depressão, estão em cada letra.
Em 2015, eu estava trabalhando em uma agência, durante o lançamento de uma marca global que havia acabado de ser redesenhada. Esse projeto demandava diversas frentes.
Durante esse tempo, ficávamos quase sempre até de madrugada atendendo pedidos incessantes.
Antes de terminarmos o trabalho, ele começava a se multiplicar. Nossa demanda era digna de uma equipe com 20-30 pessoas. Éramos 4.
Ao final de cada semana, tínhamos que preencher um timesheet para registrar quantas horas passamos em um projeto. Mas o sistema tinha uma "falha" bem conveniente: Não era possível inserir mais de 8 horas por dia. Então, se eu fiquei lá por 16 horas, só é possível registrar 8 horas.
Certa vez fiquei lá por 21 horas. Já vi colegas ficando mais de 30.
Após 7 meses disso, larguei esse barco furado totalmente destruída. Tinha muita dificuldade em interagir com outras pessoas e entrava em pânico ao ouvir o som de um email chegando, mensagem ou telefonema. Fora transtornos que já tenho, que foram gravemente potencializados.
Levei em torno de 6 meses para melhorar, com tratamento psiquiátrico, terapia ocupacional, etc. e conseguir a voltar, gradualmente a trabalhar direito.
Mas antes de melhorar, tudo o que eu conseguia pensar é que minha vida tinha perdido completamente o sentido. O cansaço só aumentava e começava a afetar diversas outras áreas, como se fosse uma toxina se espalhando pelo meu sangue e estragando cada pedaço do meu corpo.
Nessa hora você só quer que essa aflição pare. Custe o que custar.
A conscientização das pessoas sobre a devastação mental que um trabalho abusivo pode causar é URGENTE.
Chega desse modelo de trabalho que está doente e que adoece. Chega de explorar nosso amor pela profissão e nos fazer acreditar que o preço disso é entregar tudo de nós no trabalho. Chega de desvalorização. Chega de apatia!
E pra nós, designers, chega de nos subestimarmos. Temos nossos direitos e temos que exerce-los. Você é importante e sua vida é bem mais do que o trabalho em que você está.
Você é valioso. Você é um grande criativo. Você é único.
Eu desejo força e inspiração pra quem está nessa situação. Desejo que você tenha força para estabelecer metas para sair desse barco furado, desejo que seu caminho seja iluminado para que você veja uma boa saída.
Desejo que você viva por muito tempo e transforme vidas com sua paixão e com a (poderosa!) ferramenta que você escolheu: O design.
Boa sorte pra gente.