25/11/2025
“O GRITO DE UMA CRIANÇA É O SINAL DE QUE JÁ NÃO EXISTE ESCUTA POR PARTE DOS PAIS”
(Texto completo pode ser lido na edição de hoje, 25 de Novembro, do jornal OPaís, na pág. 20)
Na semana passada, depois de um dia exaustivo de trabalho, tirei alguns minutos para “zappar” nas redes sociais. Deparei-me com uma citação intrigante que, naquele momento, passou despercebida: “O grito de uma criança é o sinal de que já não existe escuta por parte dos pais”. Com a mente cansada, a mensagem não ficou retida.
Mais tarde, já em casa e após o jantar em família, percebi que não tinha ouvido as repetidas vezes que fui chamado pela minha filha. Reagi apenas quando ela gritou: “Papá, quero manga!”. O grito, que não faz parte do seu quotidiano, foi um recado claro de desgaste. A minha esposa confirmou: A menina chamou várias vezes. Dei-lhe a manga, mas corrigi-a pelo tom.
E, foi neste momento que a frase lida horas antes ganhou sentido. Na vida familiar e na vida institucional acontece o mesmo. O grito surge quando a escuta falha. Quando os sinais deixados pelo outro são ignorados, a comunicação deixa de ser diálogo e transforma-se numa disputa de ruídos.
Em pleno século XXI, comunicar não é apenas uma ferramenta estratégica, é o "caboco" que sustém qualquer organização. Sem comunicação efectiva, as organizações começam a perder vitalidade. E, como em muitas famílias, há organizações em que os “gritos” se repetem porque as causas nunca são tratadas. Tapam-se os sintomas; perpetuam-se os problemas.
Sendo assim, confunde-se com facilidade entre Ouvir com Escutar. Ouvir é fisiológico. Já Escutar é uma escolha. Requer atenção, análise, intenção de compreender. No ambiente político e económico, dominado pela competição e pela ansiedade de responder com rapidez, a escuta torna-se ainda mais determinante. Quando deixa de existir, as crises aparecem e multiplicam-se.
Foi em 2014, em que conheci o académico Esteves Hilário, então dirigente da Universidade Metodista de Angola. Uma das suas linhas de estudo eram as Autarquias. Recebi, inclusive, das suas mãos o livro “A Institucionalização das Autarquias Locais em Angola. Análise dos Pressupostos Constitucionais”.