02/10/2026
“NUNCA PENSEI FAZER OUTRA COISA A NÃO SER PADRE”, AFIRMA RAUL TATI
O padre Raul Tati recordou, com tristeza, o seu afastamento da Igreja Católica, afirmando que nunca pensou exercer outra profissão que não fosse o sacerdócio.
Segundo contou ao jornal Público, de Portugal, quando o bispo lhe comunicou que deveria deixar a Igreja, questionou para onde iria, uma vez que nunca tinha trabalhado para si próprio nem construído uma residência.
“Bispo, vou onde? Eu não tenho casa. Nunca trabalhei para mim, sempre trabalhei para a Igreja.”
O antigo sacerdote contou que o bispo lhe deu um mês para deixar o local e que acabou por ser acolhido por familiares.
Raul Tati recorda este episódio no seu mais recente livro, «Crónicas do cativeiro – Diário de um padre terrorista», onde aborda também a prisão política pela qual passou em 2010, depois de ter sido acusado de “terrorismo” no âmbito do ataque contra a seleção do Togo, em Cabinda, durante o CAN 2010.
O antigo vigário-geral da Diocese de Cabinda descreve, na obra, os momentos difíceis que viveu na prisão, onde permaneceu durante quase um ano, e afirma que encontrou na escrita uma forma de suportar o período de reclusão.
“Se não tivesse a escrita como tubo de escape na cadeia, talvez eu teria sucumbido. É uma experiência que não desejo para ninguém”, afirmou.
Raul Tati explica que decidiu publicar o livro 15 anos depois dos acontecimentos por considerar que a situação política em Cabinda continua a justificar uma reflexão sobre o passado e o presente.
“Nós ainda temos presos políticos em Cabinda. Portanto, ainda estamos a enfrentar um regime extremamente repressivo e achei que ainda era oportuno, mesmo passados 15 anos, trazer este livro para o público”, afirmou.
Sobre o subtítulo da obra, «Diário de um padre terrorista», Raul Tati explica que a escolha está relacionada com as acusações que considera abusivas de que foi alvo.
Segundo o sacerdote, durante o julgamento foi questionado pelo juiz sobre se era apologista da violência. Em resposta, recordou os seus cerca de 20 anos de ministério sacerdotal e a atividade que desenvolveu como professor universitário.
“Se eu estivesse a pregar violência, Cabinda teria virado Iraque há muito tempo”, recordou Raul Tati sobre a resposta dada em tribunal.
O padre recordou ainda que, durante o julgamento, foi questionado sobre a questão da soberania de Cabinda. Disse ter respondido que a soberania reside no povo e que a questão de Cabinda estava marcada pelo conflito entre a FLEC e o Governo de Angola, defendendo o envolvimento da população na procura de uma solução.
Raul Tati afirmou também que o antigo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, lhe pediu perdão pelas acusações de que foi alvo.
Segundo relatou, o antigo Presidente da República enviou para Cabinda três altos generais das Forças Armadas Angolanas (FAA), Hélder Manuel Vieira Dias Júnior “Kopelipa”, José Maria e Geraldo Sachipengo Nunda, então chefe do Estado-Maior General para conversarem com ele e transmitirem uma mensagem.
“A mensagem que levaram era mesmo do Presidente José Eduardo dos Santos, que pedia para virarmos a página e olharmos para o futuro numa perspetiva de diálogo pacífico para resolvermos as coisas. A minha mensagem também foi nesta perspetiva, de que se podia investir no diálogo pacífico e não estar aí a prender pessoas e nem tão pouco fazer execuções sumárias”, afirmou o padre Raul Tati.