17/07/2017
Em 7 minutos, este ator argentino dá uma lição sobre dinheiro e felicidade
Um viral no YouTube é pior do que tatuagem. A segunda, ao menos, ainda você consegue tirar, caso se arrependa. Na internet, esse direito não existe. Mas e quando o viral é bom? Quando o conteúdo agrega e transforma? Felizmente, eles também existem – e são muitos.
Há pelo menos três anos, costumo revisitar um desses vídeos inspiradores, na verdade o trecho de uma entrevista de Alenjandro Fantino com Ricardo Darín, 60 anos, um desses atores monumentais cuja simples presença no elenco te fazem decidir se você assiste ou não ao filme.
Darín protagonizou alguns dos melhores títulos do cinema argentino contemporâneo: Nueve Reinas (2000), El Hijo de la Novia (2001), Luna de Avellaneda (2004), El Aura (2005), El secreto de sus ojos (2009) e Un cuento chino (2011), Relatos Selvajes (2014) e Truman (2015), entre outros.
É na vida real, porém, que Darín demostrou o porquê é muito maior do que a ficção e por que merece estar onde está. Em 17 de setembro de 2013, em apenas 7 minutos, em uma rara demonstração de coerência e grandeza em seu meio, ele nos dá uma lição sobre dinheiro e felicidade, que merece todas as curtidas do mundo.
A certa altura do bate-papo, Darín é questionado por qual motivo recusou um papel em Hollywood.
Em minha tradução livre, o diálogo que se segue f**a mais ou menos assim:
Fantino – É verdade que você recusou uma oferta para filmar em Hollywood?
Darín – Sim, claro
F – E por quê?
D – Porque me ofereceram o papel de um narcotraf**ante mexicano. Perguntei ao produtor por que os mexicanos têm de seguir sendo os traf**antes, se aqueles que mais consomem dr**as no mundo são os americanos? Não gostei. Eu queria voltar para minha casa, fazia seis meses que eu estava fazendo teatro, em Madrid. Eu queria rever a minha mulher e meus filhos... A agente me disse inicialmente ‘não aceito não como resposta’. Depois, passaram uma semana na porta do teatro e me inquiriram: ‘É uma questão de dinheiro?’ Eu respondi: ‘Não, não me interessa’
F – Mas você poderia até ter ganhado um Oscar...
D – Creio que não me expliquei bem. Já estive em uma cerimônia do Oscar e não gostei. Tudo é de plástico dourado, até as relações entre as pessoas. Fui ao Oscar, foi ótimo, aproveitei... Mas esse mundo não é o meu, não é o que escolhi para minha vida
F – Você imagina o dinheiro que poderia ter ganhado?
D – E...? Para que serve? Para ser um milionário? Para quê?
F – (Choque) Para viver melhor...
D – Melhor do que eu vivo? Eu tomo duas duchas quentes por dia. Eu estava bem no teatro, trabalhando. As pessoas nos beijavam e nos abraçavam nas ruas. A ambição pode te levar a um lugar muito obscuro, muito desolador. Isso não me motiva. Não que não goste do dinheiro ou de estar em uma situação de tranquilidade econômica. Tenho um carro importado de luxo e me sufoca. Sou feliz quando o dirijo para meu filho. Sou um privilegiado. Me abrem as portas e me convidam para trabalhar há 30 anos.
F – Vejo que te queima por dentro ajudar o outro...
D – O grande problema da sociedade é como pensamos sobre os demais. Nos fizeram crer que a forma de nos cuidarmos e nos defendermos é o individualismo. Primeiro, nos entregaram de mãos e pés atados ao consumismo. Porque os grupos de pertencimento estão relacionados a quanto tens e se você tem o último modelo de celular ou não. E se você está atrasado nessa atualização você é um id**ta, ainda que seu telefone funcione muito bem. Estamos defasados. Existem pessoas que não podem tomar um banho quente por dia. Que não têm um prato de comida. E isso é grave.
F – Você realmente me assusta, Ricardo. Eu te imaginava mais realista, mais pés no chão
D - Mas que coincidência, eu também te imaginava
Como a emoção da conversa vai muito além do texto, aqui está o vídeo com legendas em português
https://www.youtube.com/watch?v=w_PjeU7VwR4&feature=player_embedded
Fim.
Texto originalmente retirado do Linkendin, autor Marc Tawil
www.fb.com/horizonteampliado Entrevistado em setembro no late show argentino Animales Sueltos, o ator Ricardo Darín fala sobre a recusa de uma proposta de um...