09/08/2020
O ritual era sagrado: mal sentava-se à mesa do boteco e já pedia o indefectível “querosene”, como ele chamava o copinho de shot contendo o Steinhäger gelado e a casquinha de limão. Após a primeira, “pra quebrar o gelo”, sucediam-se outras doses do destilado, que degustava entremeando com as tulipas de cerveja para bem temperar a conversa.
Aprendi com ele o ritual e acabei ficando com esse “mau”...rsrsrs...costume de tomar Steinhäger junto com cerveja. Mas ele sempre soube o que era bom!
Assim também foi com os churrascos. “Queimar uma carne” na companhia da família e dos amigos era uma das poucas coisas que o deixavam realmente feliz! Isso estimulou-me também a acender mais vezes a churrasqueira de casa na companhia dele e a me aprimorar nessa arte com alguns macetes que ele prazerosamente ensinava.
Formado em Engenharia Química pela USP nos “anos de chumbo”, viveu na pele a violência da repressão da ditadura militar contra o movimento estudantil na época. Culto, apaixonado por História, tinha uma opinião crítica a respeito de tudo e por causa disso as conversas com os amigos no boteco eram sempre “um papo cabeça”: política, cultura, religião, educação e, claro, futebol, porque ninguém é de ferro...Como palmeirense, honrava na camisa do time preferido a sua descendência italiana.
Também colecionava imagens de sapo, acreditam? Havia em sua casa uma estante repleta delas, em porcelana, vidro, madeira, pedra, onde fosse possível reproduzir o batráquio.
Foi executivo de multinacionais da área química, viajou pelo mundo e adorava compartilhar na mesa do boteco os inúmeros e hilários “causos” vivenciados em sua bem-sucedida carreira. Nesses momentos, ninguém em volta ficava indiferente à voz grave e aos palavrões proferidos em tom entusiasmado com que invariavelmente pontuava os seus comentários e suas narrativas jocosas.
Bonachão, irreverente, boa-praça... Assim era NELSON MAMMANA, amigo querido que nos deixou há uma semana e foi bebericar seu shot de Steinhäger gelado em outra dimensão.
Restou a saudade em mim e naqueles que tiveram o privilégio de conviver de algum modo com ele: Maurício de Godoy, Cesar Onaga, Osvaldo Nogueira (Grilo), Jose Luiz Cantanhede, Carlos Verissimo, Júlio, Luiz Alberto do Nascimento, entre outros, e Beto, do Botequim do Beto, local que sempre acolheu de braços abertos nossos etílicos e memoráveis encontros – e onde o “NELSÃO” será sempre lembrado!