29/04/2026
Memória Capelense
Orlando Vieira Dantas
Nascido em 28 de setembro de 1900, no Engenho Palmeira, em Capela (SE), Orlando Dantas cresceu imerso na cultura patriarcal típica da economia açucareira nordestina. Filho de Manoel Corrêa Dantas — que governou Sergipe entre 1927 e 1930 —, herdou não apenas a posição social, mas também o vínculo direto com a produção canavieira, chegando a dirigir a Usina Vassouras. Ainda assim, construiu uma trajetória que ultrapassou os limites de sua origem.
Foi no jornalismo que Orlando Dantas encontrou sua principal trincheira. Desde cedo demonstrou inclinação para a escrita e o debate público. Em 1927, tentou fundar um jornal que já carregava o nome que marcaria sua história — Gazeta de Sergipe —, embora a iniciativa inicial não tenha prosperado. Persistente, consolidou-se posteriormente como o maior nome da imprensa sergipana do século XX.
Sua atuação jornalística foi marcada por firmeza ideológica e espírito combativo. Fez da imprensa um instrumento de enfrentamento político, denunciando arbitrariedades, injustiças sociais e defendendo a economia estadual. Em 1944, participou da fundação do jornal O Nordeste. Mais adiante, em 1956, criou a Gazeta Socialista, veículo que expressava suas convicções políticas e enfrentava diretamente setores conservadores da elite sergipana.
O auge de sua obra jornalística ocorreu em 1958, com a fundação da Gazeta de Sergipe, primeiro jornal diário de Aracaju. O periódico tornou-se espaço plural de debate e consolidou-se como referência na comunicação estadual. Sob sua liderança, o jornal não apenas informava, mas também mobilizava a opinião pública, especialmente em momentos de tensão política, como no período pós-1964, quando chegou a ser empastelado após o golpe militar.
Paralelamente ao jornalismo, Orlando Dantas teve atuação política relevante. Participou da fundação da Esquerda Democrática em Sergipe e elegeu-se deputado estadual constituinte em 1946, destacando-se pela defesa das liberdades políticas — inclusive ao protestar contra o fechamento do Partido Comunista. Posteriormente, como deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro (1951–1955), foi uma voz ativa em favor do nacionalismo econômico, especialmente na campanha pela criação da Petrobras e pelo monopólio estatal do petróleo.
Sua trajetória, contudo, não esteve isenta de contradições. Em 1969, durante o regime militar, filiou-se à Arena, partido governista, justificando a decisão como tentativa de promover mudanças internas no sistema político. O gesto foi amplamente criticado e, mais tarde, reconhecido por ele próprio como um equívoco. Após esse episódio, afastou-se da militância partidária.
Além do jornalismo, Orlando Dantas destacou-se como autor de obras voltadas à análise da sociedade sergipana. Entre seus livros, sobressai A Vida Patriarcal de Sergipe (1980), obra de caráter autobiográfico e sociológico, na qual examina as raízes históricas da dominação masculina e da estrutura dos engenhos. Também publicou O Problema Açucareiro de Sergipe (1944) e Política de Desenvolvimento de Sergipe (1974), evidenciando seu compromisso com a reflexão sobre economia e sociedade.
Orlando Vieira Dantas construiu uma trajetória singular. Empresário, político, jornalista e pensador social, foi, acima de tudo, um homem que ousou confrontar seu próprio tempo — e suas próprias raízes.
Faleceu em 9 de abril de 1982, deixando como legado uma obra que permanece como referência para a compreensão da sociedade sergipana.
{Fontes: Marcos Cardoso, Portal Infonet, 10 de dezembro de 2018; Manoel Cabral Machado, Brava Gente Sergipana e Outros Bravos, Editora J. Andrade, Aracaju.}