01/06/2026
SOPROS DE UMA VIDA: por Sophie Gabriele.
Eu sempre soube que o oxigênio era importante para viver, mas agora, que ele parecia correr para fora de mim e nunca mais voltar, percebi o quanto ele era precioso. Não que eu fosse ingrata; sempre, antes de dormir, agradecia a Deus por mais um dia, mas, quando a vida parece escapar, nos tornamos gratos até por uma borboleta que passa.
Eu estava deitada na minha cama. Me recusei a morrer num hospital. Minha filha chorava e meus netos também. Eu nunca gostei de choros, mas isso era um sinal de que eu faria falta, e, se eu faria falta, é um sinal de que fui uma boa pessoa, eu acho.
Meus filhos mais velhos tentavam não chorar, mas uma lágrima ou outra escapava. Eu sabia que eles estavam destruídos por dentro.
Reuni um pouco da força que me restava e disse para minha neta mais velha:
— Milena, querida… pega pra vó esse álbum de fotos.
— Qual deles, vó? — disse com a voz embargada.
— O verde-musgo — respondi, arrasada.
Vi Milena se abaixar na frente da estante e pegar um monte de livros e álbuns até achar o que eu queria. Ela se levantou e o deixou em minhas mãos com um sorriso frágil. Depois, se afastou e se deitou numa poltrona velha que eu havia ganhado de presente de casamento. Eu gostava muito dela e tinha amamentado meus quatro filhos ali.
Abri o álbum com muito cuidado, inalei o cheiro de livro antigo e apreciei suas bordas amareladas. Folheei algumas páginas e encontrei uma foto minha. Eu devia ter uns sete anos ou menos, realmente não me lembro, mas com certeza era uma época da minha vida em que minhas preocupações eram leves, mas puras; uma época da minha vida em que eu só me preocupava com a hora de sair de casa para brincar na rua.
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