04/08/2016
RAPTO DE CRIANÇA QUE COMOVEU O ESTADO COMPLETA 20 ANOS
Crime ocorreu em 1996 com Schaino Ross, de três anos; veja como estão os envolvidos no caso.
Criciúma
Há 20 anos Criciúma presenciava um dos crimes de maior repercussão da cidade: o rapto de uma criança de três anos. Foram 34 dias de angústia para a equipe de investigação envolvida no caso, familiares e toda a sociedade da época. O crime iniciou no dia 12 de julho de 1996 e teve seu desfecho em 16 de agosto. Diligências, depoimentos, cartazes espalhados pela região buscavam encontrar Schaino Ross de Villa, de três anos, raptado pela adolescente Alexsandra Sardinha Cardoso, de 16 anos.
Prestes a completar 23 anos no dia 7 de agosto, Schaino é morador do bairro Jardim Maristela e leva uma vida agitada comum dos jovens, onde concilia seu curso superior em Administração com seu cargo no setor financeiro de uma concessionária da cidade.
Seu destino poderia ser outro se não fosse o trabalho da equipe de investigação da Delegacia de Proteção à Mulher, à Criança, ao Adolescente e ao Idoso comandada na época pelo delegado Adauto de Souza. Já a policial civil Maristela Michels teve seu empenho profissional e pessoal no caso, acompanhando o pequeno Schaino desde o período do rapto até os dias de hoje.
Os três personagens desta história estiveram reunidos e relembraram do caso ocorrido em 1996. “Penso que eu estou aqui por causa deles, tenho muito para agradecer”, afirma Schaino, que não possui recordações dos dias em que esteve raptado. “Segui uma vida sem traumas e nunca quis buscar respostas com os responsáveis pelo crime justamente para não lembrar e desenvolver qualquer lembrança negativa”, completa.
Maristela, que participou de todas as etapas de investigação do rapto, nunca esqueceu o caso durante os seus 28 anos como policial civil. “O desfecho foi uma das melhores coisas que me aconteceram na vida. Não tem dinheiro que pague tudo que fizemos para encontrá-lo. Eu tinha que dar uma resposta para aquela avó que todos os dias me ligava perguntando pelo neto e a gente acalmava e prometia que o encontraria”, recorda.
A avó materna de Schaino, Zulma Millioli Ross, acompanhou o caso dia a dia junto com as investigações. Depois do resgate, Zulma passou a morar com Schaino e sua mãe.
“Com medo que algo acontecesse comigo de novo, fomos morar juntos. Ela foi parte fundamental da minha criação”, frisa o rapaz. Schaino morou ao lado da avó até o primeiro semestre deste ano, quando um câncer a vitimou. No mesmo terreno e em outra casa reside a mãe do jovem.
A ligação de Maristela com o caso não terminou com o desfecho do crime. “Sou muito sentimental e acabei me apegando ao garotinho. Nunca vou esquecer dele no meu colo chegando na delegacia e depois sendo entregue para família”, conta. A policial esteve presente na vida de Schaino desde a infância. “Sempre esteve comigo, sempre me ajudou, foi minha segunda mãe”, fala Schaino com carinho.
O jovem, que tinha o sonho de ser jogador de futebol, agora projeta para o futuro sua intenção de abrir o seu próprio negócio. “Ainda não tenho definido em que área quero montar minha empresa, mas esse é um dos meus desejos. Agradeço por estar nessa condição: trabalhando, estudando e rodeado com pessoas de bem que fazem parte da minha vida, tanto pelo rapto ou pelas demais circunstâncias”, comenta.
O RAPTO
Alexsandra era conhecida do meio policial. Desde os 8 anos saía de casa e não informava seu paradeiro para a família. “A mãe dela esteve inúmeras vezes na delegacia registrando queixas por desaparecimento. Ela saía de casa na sexta e voltava na semana seguinte”, conta Maristela.
Em uma das saídas da jovem na antiga discoteca Signus, em Criciúma, no domingo do dia 8 de julho, Alexsandra conheceu V.B, de 21 anos, que a convidou para morar com ele em uma casa no bairro São Luiz. Ele morava com O.J.O, de 21 anos, então namorado de Maria Aparecida Ross, mãe do pequeno Schaino.
Os casais passaram a viver na mesma residência e, aparentemente, muito cuidadosa Alexsandra começou a cuidar da sua futura vítima. Na quinta-feira da mesma semana, dia 12, a adolescente saiu para passear com a criança e ambos não foram mais vistos. A partir daquele momento iniciou a angústia da família: raptado e raptadora estavam desaparecidos.
“Quando a família esteve na delegacia registrando a ocorrência eu já conhecida todo o histórico da Alexsandra”, lembra Maristela. As diligências em busca do garoto iniciaram pouco tempo depois, mobilizando a polícia e os familiares. “Espalhamos cartazes por toda a região, íamos todos os dias na rodoviária e em outros lugares em que ela pudesse estar, mas não encontrávamos respostas”, relembra a mãe, Maria Aparecida.
Com R$ 10 no bolso, Alexsandra saiu de Criciúma com a criança no colo e foi para Morro da Fumaça de ônibus. Segundo o depoimento da jovem na época, na cidade vizinha ela encontraria V.B e O.J.O, no entanto, ambos não apareceram e ela foi para Tubarão. Na cidade ela pediu carona para um caminhoneiro e se deslocou para o Rio de Janeiro.
A raptadora relatou em depoimento que na cidade carioca uma senhora a ajudou e a recolheu por um tempo, inclusive, lhe deu dinheiro. O valor foi usado para comprar uma passagem para Florianópolis. Ao chegar na capital, ela se dirigiu para Palhoça.
De acordo com o delegado, Alexsandra conheceu uma garota chamada Raquel em um jogo de futebol e queria sair para dançar. Para que as duas pudessem entrar na danceteria a criança foi deixada na casa da irmã de Raquel. Elas arrombaram a janela da residência, deram 20 gotas de anador e dois comprimidos de AS Infantil para Schaino dormir.
Quando a irmã de Raquel chegou em casa se deparou com uma criança dormindo e acionou o Conselho Tutelar de Florianópolis. O garoto foi recolhido no dia 4 agosto e como falava pouco não foi reconhecido. Enquanto isso, Alexsandra viajou até Curitiba para encontrar um ex-namorado.
A mãe de Alexsandra afirmou na época que a filha tinha um namorado cigano em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba. Com esta informação, os policiais daquela região estavam de sobreaviso. Na capital paranaense, a adolescente passou mal e deu entrada em um hospital. Ela acreditava estar grávida de três meses e teria sofrido um ab**to.
Na unidade hospitalar, Alexsandra foi reconhecida e a Polícia Civil de Criciúma foi informada pelos policiais paranaenses. Imediatamente, o delegado Adauto, acompanhado dos policiais civis Maristela e o Luiz Carlos Machado se deslocaram para o Paraná. “Chegamos lá e encontramos somente a jovem, que relatou que tinha deixado a criança em Palhoça”, conta o delegado.
A equipe junto com Alexsandra retornou para Santa Catarina no dia 16 de agosto. Antes disso, a criciumense havia prestado depoimento em Curitiba, quando contou todo percurso feito com a criança.
"Fomos até a casa dessa pessoa, onde ela tinha deixado a criança. Lá fomos informados que ele havia sido levado ao Conselho Tutelar. Eram 3 horas da madrugada quando chegamos e encontramos o Schaino deitado em um beliche no Conselho Tutelar. Foi muito emocionante, todos choraram. O objetivo da nossa investigação, do sofrimento da família e da população de Criciúma que estava mobilizada havia sido concluído”, relembra o delegado.
Depois daquele momento, o delegado buscou os meios legais para liberar a criança junto com o promotor da Vara da Infância de Palhoça, se deslocando para Criciúma por volta das 15 horas do dia 16 de agosto.
A adolescente relatou em depoimento que efetuou o rapto obrigada pelo namorado da mãe da criança O.J.O. Segundo ela, ele não tinha afinidades com o garoto. O namorado da jovem V.B também estava envolvido na ação. Eles foram localizados, prestaram depoimento e foram levados ao Presídio Santa Augusta.
Não há informações de quanto tempo os homens ficaram detidos. A reportagem esteve na Delegacia de Proteção à Mulher, à Criança, ao Adolescente e ao Idoso e no Fórum de Criciúma, mas em ambos os locais não há registro dos envolvidos. Além das duas décadas que se passaram, todos os processos são localizados de forma digital, recurso que passou a ser implantado nos idos dos anos 2000.
O REENCONTRO COM A FAMÍLIA
Um grande público e a imprensa da região esperavam pelas viaturas da Polícia Civil na Delegacia de Proteção à Mulher, à Criança, ao Adolescente e ao Idoso no início daquela noite. “Foram dias de muito desespero, não sabíamos mais o que fazer para encontrar o Schaino. Quando encontrei com ele foi uma felicidade incrível. Este é o tipo de história que jamais se esquece”, lembra a mãe do garoto.
Maria Aparecida não conteve as lágrimas ao rever o filho. No entanto, antes de pegá-lo no colo, Maria ficou cara a cara com Alexsandra. “Recordo dela chorando e a questionei: ‘Eu te tratei tão bem, por que você fez isso comigo?’. Eu acabei confiando na boa fé e fui surpreendida”, comenta. Maria Aparecida tem 50 anos e mais três filhos. Schaino é o caçula.
Depois do desfecho do caso de Schaino, Alexsandra foi encaminhada para o Centro de Internamento Provisório (CIP) de Criciúma, por onde permaneceu por aproximadamente um ano. Nos demais delitos, quando já era maior de idade, a raptadora foi presa por apenas um dos crimes de Barra Mansa.
Condenada a dois anos e dois meses de prisão, Alexsandra foi designada para uma casa de psiquiatria de Criciúma, mas acabou sendo internada no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Heitor Carrilho, no Rio de Janeiro, onde ficou até o dia 23 de abril de 2004, quando saiu para visitar a família e não retornou. A criciumense foi diagnosticada com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) por crianças e dizia que não conseguia se controlar. Ela relatava ainda que não poderia gerar um filho.
Alexsandra morreu por volta das 17:30 do dia 9 de fevereiro de 2010, em Salvador, na Bahia.
Ela foi estuprada e executada com um disparo de arma de fogo na nuca em uma estrada isolada. Ela estava com outra mulher, de 18 anos, que também foi morta no local e não foi identificada.