14/02/2026
Um Maluco Beleza em Marechal Cândido Rondon
Iam nos anos 70. Marechal Cândido Rondon ainda tinha cheiro de terra vermelha, barulho de carroça nas madrugadas frias, conversa boa nos bolichos e bailes animados nos salões de madeira. A cidade era feita de colonos, agricultores, famílias simples, gente que acordava cedo, trabalhava duro e buscava no domingo um pouco de festa, música boa e alegria sem complicação.
Foi nesse cenário que um quase desconhecido Raul Seixas resolveu aparecer...
Chegou com roupas estranhas, cabelo desalinhado, olhar inquieto e um jeito que não combinava muito com o chapéu de feltro, o vestido rodado, a música alemã, a gaita, a vaneira e o sertanejo raiz. Seu som vinha carregado de filosofia, contestação, poesia torta e provocações. Era outro mundo.
Nos bolichos, o assunto correu solto.
— Quem é esse sujeito?
— Que tipo de música é essa?
— Isso não é pra nós…
No salão, o público, acostumado aos ritmos tradicionais, estranhou. Houve conversa alta, dispersão, certo desconforto. Não por maldade, mas por incompreensão. Aquele artista parecia falar uma língua diferente. Era um choque entre o Brasil urbano em ebulição e a tranquilidade da vida interiorana.
Raul sentiu.
Na manhã seguinte, descia silencioso pela Rua Santa Catarina quando, em frente ao prédio da Rádio Difusora — que funcionava na antiga rodoviária —, encontrou o cantor Walter Basso. O olhar cansado denunciava frustração. Walter, com sua educação simples e acolhedora, fez o convite:
— Entra, Raul… vamos conversar um pouco.
Entre microfones, café quente e palavras gentis, veio o alento. Conversaram sobre música, estrada, sonhos, dificuldades. Walter ouviu mais do que falou. E naquele gesto simples, típico do interior, conseguiu tranquilizar o artista inquieto.
Raul seguiu viagem. Levou consigo talvez a lembrança de uma cidade que ainda não estava pronta para compreendê-lo.
Pouco tempo depois, o Brasil inteiro cantava Gita, Maluco Beleza, Ouro de Tolo e tantas outras canções que se tornaram eternas. O quase desconhecido transformou-se em lenda. E Marechal ficou guardada, discretamente, em uma das páginas menos conhecidas dessa história.
Hoje, quando alguém comenta sobre aquela passagem, é impossível não sorrir. Porque, sem saber, nossa cidade recebeu um gênio antes que o mundo o reconhecesse.
Foi assim que, certa vez, um maluco beleza caminhou pelas ruas tranquilas de Marechal Cândido Rondon — entre bolichos, salões e silêncios — deixando uma história que o tempo não apagou.
Agradecemos ao Cantor, Compositor e Comunicador... Walter Basso por manter lindas histórias vivas...
Viva Marechal