29/05/2026
Sou nascido em 1981. Pertenço a uma geração que viu a virada tecnológica acontecer literalmente diante dos olhos.
No início dos anos 90 predominavam discos e fitas cassete. Poucos anos depois vieram os CDs. Logo depois, músicas dentro do computador. VHS virou DVD, DVD virou Blu-ray. Foram transformações extremamente rápidas.
Mas quero falar de outra mudança.
Uma zona cinzenta de poucos anos que talvez tenha criado uma diferença gigantesca na forma como gerações absorveram conhecimento técnico.
Nasci dentro de uma pequena indústria que despertava fascínio em mim. Ver meu pai operando diferentes máquinas e acompanhar aquele ambiente me aproximou cedo de um nicho que acabaria moldando minha vida: a usinagem de engrenagens.
Esse fascínio me levou a buscar conhecimento — primeiro sobre fabricação, depois sobre projeto. O caminho, porém, foi difícil.
Grande parte da informação simplesmente não existia de forma acessível. Muito do material estava preso dentro das empresas. O que se encontrava frequentemente estava em língua estrangeira — que eu não dominava, mas precisei compreender na marra.
Demorei anos para entender conceitos que hoje podem ser encontrados em minutos. Passei por diversas empresas, abdiquei de inúmeros finais de semana e investi incontáveis horas tentando conectar teoria com prática.
Para quem nasceu nos anos 90 ou 2000 e compartilha desse interesse, existe um aliado poderoso: acesso.
Claro, também vivi o começo da internet no Brasil. Mas a difusão realmente ampla e acessível de informação técnica especializada aconteceu muito mais tarde.
Hoje, alguém interessado pode aprender em poucos anos o que talvez tenha levado décadas para outra geração construir.
Os dias procurando livros usados em sebos, emprestando obras técnicas em bibliotecas, faculdades e SENAIs, foram substituídos por algo que cabe no bolso.
Obras de Buckingham, Dudley, Niemann, Henriot, Casillas e tantos outros, que antes exigiam verdadeira caça ao tesouro, hoje podem ser encontradas em minutos.
Na época existiam excelentes referências — lembro de obras como "Engrenagens", do Prof. Marco Stipkovic, do Prof. Nelson de Campos e tantas outras — porém muitas vezes faltavam exemplos práticos e aplicações claras.
Hoje existe uma conferência bienal inteiramente dedicada ao tema: a Brazilian Gear Conference.
A grande diferença talvez seja esta:
Hoje existe abundância de informação.
Ontem existia escassez.
Mas existe algo que continua exatamente igual:
Informação sozinha não gera conhecimento.
Conhecimento nasce quando teoria encontra prática.
Talvez o maior desafio atual não seja encontrar informação. Talvez seja transformar informação infinita em experiência real.
O verdadeiro ouro nunca esteve apenas no conhecimento teórico. Sempre esteve no cruzamento entre teoria, prática e experiência.