29/10/2015
| 29 de Outubro. Dia do Livro |
Em homenagem ao Dia do Livro, uma crônica escrita pela nossa diretora, Martha Sampaio.
Filhos e Livros
Se você passou dos 40, é provável que já tenha traído a própria história uma centena de vezes. Funciona assim, como numa progressão geométrica: a cada ano a mais de vida, maior a incidência. Aconteceu comigo, há poucos dias. Minha filha de 16 anos irrompeu no que seria um domingo pacífico, como quem decide aniquilar o inimigo. A crise se resumia a vencer a leitura de um clássico Machado de Assis para encarar a prova e a professora no dia seguinte.
Eu poderia ter ficado bem quietinha. Ela só queria ouvidos de mãe dispostos a escutar. Traí os meus anos de juventude e, por pouco, não completei a performance com o clássico no meu tempo as coisas eram bem diferentes. O evento nem evento era. Era, sim, uma menina adolescente normal, inquieta, afogada em hormônios e enfarada, tentando dizer que não estava na onda do Machado. E só. Consegui o que com isso? A repulsa dela por aquele livro e por todos os seus pares. A ansiedade me roubou a chance de ser honesta. Esqueci de dizer a ela o quanto eu odiava os romances do Machado de Assis quando eu tinha 16 anos.
Estrago feito, procurei desatar a minha loucura. Nós, analógicos quase desajustados, vivemos a síndrome do onde tudo vai parar. Cutucados pelos bytes da nova cultura, nem sempre nos mantemos impermeáveis às especulações exageradas que apontam o distanciamento que a geração digital vem estabelecendo com as letras, a profundidade, o pensamento, o debate, com a densidade esperada de alguém que pretenda, um dia, ser alguém. Eles, jovens, acessam tudo e sabem tudo. Na superfície. E são hábeis em sintetizar todo este conhecimento, em 140 caracteres. Um horror! Bons tempos aqueles em que os jovens liam livros, berram os assustados, alertando para uma epidemia da ignorância e, sabe-se lá, para o funeral desta notável brochura impressa em papel. Uma pena. Talvez estes adultos desconfiados estejam tentando justificar o injustificável.
É evidente que estamos vivendo uma transformação. Mas é somente mais uma transformação. Ou será que a chegada do Rádio, do Cinema e da Televisão passou, assim, tão despercebida? Será que estas novidades do século XX foram, em seu tempo, tão despretensiosas e destituídas da capacidade de promover mudanças? Acho que não. Este é apenas mais um momento de reorganização social e cultural. E, como nos anteriores, o avanço tecnológico não é o mais importante. Hoje, apenas amplificamos a capacidade de produzir e distribuir conteúdo numa dimensão sem precedentes. É fato que a tecnologia digital, numa escala maior do que as que a precederam, surpreende em possibilidades, quando não assusta. Porém, importa menos o meio e mais a responsabilidade, os propósitos e a visão de quem dele se serve. Sempre houve os que extraíram o melhor caldo da inovação. E sempre houve os outros.
Daí que, segundo alguns estudiosos, transcendemos a era da informação para a do conhecimento. Significa saber o que buscar, como filtrar e o que fazer para transformar tanta informação em conhecimento. Esta é uma boa aposta, se você tem ambições quanto ao futuro. Como toda mãe minimamente focada, esta é a minha aposta com relação aos meus filhos. Agora, se eles vão buscar resposta no livro impresso, no e-book, ou somente na grande rede, não faço a menor ideia. Mas me importo. Algumas coisas, simplesmente, não podem ir para o baú.
Sou uma romântica, é verdade. Na dúvida, insisto com meus filhos: livro impresso é patrimônio e herança. Está lá para sempre, fiel e constante. Não nos abandona por nada nesse mundo, nem mesmo quando cai a luz, a bateria, a conexão, ou o servidor. Isto, sem considerar que vem com alma. Assim, diante da fúria dos apelos apresentados a eles, todo o santo dia, espero que reconheçam e perpetuem o valor de um bom livro impresso, robusto e lindo.
Minha filha está, agora, curtindo a praia com o irmão, os primos, o vô e a vó. Levou, na mochila, as roupas de praia e balada, além dos sonhos e fantasias de mais um verão. Com tudo isto em mente, e com tantas conexões, ainda coube o livro “A menina que roubava livros", do Markus Zusak. Tomara que ela goste.
Eu gostei.