20/03/2019
Seu negócio inspira pessoas?
O Que Podemos Aprender Com o Caso Bettina?
Nos últimos dias, só se fala na Bettina. Em grupos do Whatsapp, Facebook, YouTube e Twitter a menina que clama ser milionária aos 22 anos virou o assunto do momento no país.
Eu recebi uma chuva enorme de pessoas me pedindo para falar o que achava sobre o tema.
Este texto é sobre isso.
-Uma Geração Marcada Pelo Medo
Durante 45 anos, o mundo viveu sob o peso da Guerra Fria. Com o apertar de um botão, qualquer um dos lados poderia acabar com a vida no planeta.
Tenso.
Nos Estados Unidos, as crianças eram ensinadas, já na escola, sobre o perigo nuclear. Nova Iorque emitiu 2.5 milhões de etiquetas de identificação (parecidas com as usadas por militares) para identificar suas crianças. Professores gritavam "todo mundo, abaixem-se" de forma totalmente aleatória para treinar seus alunos sobre como proceder contra um possível ataque com armas químicas ou nucleares.
As famílias eram incentivadas a construírem bunkers em seus quintais. O sentimento de medo de sofrer um ataque iminente marcou toda uma geração, que viveu sob o jugo de sempre esperar o pior. Imagine viver por anos olhando pela janela, procurando se um avião soviético poderia aparecer a qualquer momento?
Agora, advinhe quem lucrou muito com isso?
As empresas que vendiam produtos, serviços e maneiras de as pessoas "se protegerem".
Veja só esse anúncio:
(Foto nos comentários)
"Ataque nuclear? Proteja sua família agora! Aumentamos suas chances de sobrevivência em 4.000%!"
As marcas descobriram que o medo é um poderoso motivador para fazer as pessoas agirem de forma irracional. Anúncios na revista Life de empresas de investimento diziam: "Se As Bombas Chegarem - O que Acontece Com Seus Investimentos" e "Como Sobreviver Após um Ataque" eram a mania do momento e movimentaram bilhões na economia.
Foi a era do marketing baseado no medo.
E, do ponto de vista de faturamento, foi um sucesso.
Mas e do ponto de vista humano?
Será que levar as pessoas à beira do pânico, temendo por suas vidas e de seus familiares, é a coisa certa a se fazer hoje em dia?
A empresa por trás da Bettina, que vende relatórios financeiros para quem quer investir em ações na bolsa, usa e abusa do sentimentos de sobrevivência para gerar sua vendas.
Em campanhas como "O fim do Brasil", "R$1.823 em sua conta, todo mês", e, claro, a Bettina com seu "Tenho 22 anos e mais de R$1 milhão acumulados" focam justamente em mexer com esse lado do ser humano: medo e ganância.
E isso está errado.
-Gerar Resultado Não Torna Algo Certo
Nos últimos anos, fala-se muito dos tais "gatilhos mentais", que são atalhos poderosos usados, muitas vezes, por marketeiros que buscam manipular as pessoas para venderem seus produtos e serviços.
Apelar para sentimentos tão instintivos, como medo e ganância, pode até gerar vendas. Mas gera muito dano no seu caminho.
Empresas e marcas precisam pensar além das vendas. Elas têm uma função social crucial na formação de opinião pública. E isso acontece pois muito mais pessoas são impactadas por sua mensagem do que de fato compram.
Faz essa conta comigo…
Digamos que, nos últimos 10 anos, as campanhas da empresa da Bettina tenham atingido 60 milhões de pessoas (só o vídeo da Bettina já tinha mais de 15 milhões quando eu o assisti). A empresa afirma ter mais de 300 mil clientes.
Ou seja, para cada pessoa que decidiu comprar, outras 200 precisaram ser impactadas.
Se a mensagem levada é de medo ou lucro fácil, qual o resultado final?
Muitas pessoas sendo estimuladas em seus instintos mais rudimentares. É relembrar de nossa origem animal e esquecer tudo que temos tentado por milhares de anos para elevar nosso espírito e nos diferenciar dos demais seres vivos do planeta: a capacidade de evoluir além de nossas necessidades básicas instintivas.
Isso não é exclusividade deste caso. Por séculos, homens usam o s**o, o poder, a raiva, o medo e a ganância para vender bebidas, carros, roupas, artigos de beleza e até destinos turísticos.
Até que ponto essa abordagem vale a pena?
Não podemos cair no erro de acreditar que “se vende, então está tudo bem”.
Não.
Da mesma foram que uma fábrica não está certa em despejar produtos químicos em um rio, não importa o quanto ela venda do seu produto, nem tudo que gera resultados está certo.
Performance financeira não pode ser a única medida de sucesso. Se assim o fosse, Pablo Escobar seria um exemplo de sucesso empreendedor. Você ensinaria suas técnicas de gestão para seu filho?
Marcas precisam entender que fazem parte de algo maior. Que seu sucesso cada vez mais será medido pelo conjunto da obra, não somente por margem de lucro ou se seu produto funciona.
-Somos Responsáveis Por Quem Nosso Marketing Atinge
Seu marketing vale tanto quanto seu produto. Afinal, você é responsável por cada pessoa que impacta.
Precisamos de mais marcas que elevam nossos espíritos. Que ampliam nosso entendimento ao mesmo tempo que fortificam o que torna o humano menos animal e mais divino.
Imagine um mundo onde o marketing enriquece mesmo quem não compra? Onde cada contato enriquece a pessoa ao invés de fazê-la sentir-se um neandertal?
Ser conhecido é diferente de ser desejado. Fazer qualquer coisa para ser notado pode funcionar a curto prazo, mas a longo prazo qual o resultado? Ser conhecido é ser popular. Ser conhecido pela coisa certa é posicionamento. Existe um mundo de diferença.
Da mesma forma que muitos jornais e canais jornalísticos hoje só focam em produzir o que gera audiência, quando você deixa a busca por atenção ditar seu marketing, você perde sua essência. Você se torna um mercenário disposto a fazer qualquer coisa por um pouquinho de atenção, mesmo que afete muito mais pessoas do que ajuda no processo.
Se todas as empresas decidirem fazer qualquer coisa para serem notadas, como isso afeta seu posicionamento? Como ficaria o mercado?
Seria a “guerra fria da comunicação”.
Eu não sei se a Bettina é milionária ou não. Não sei se seus conselhos financeiros funcionam ou não.
O que sei é que as pessoas estão cansadas de marcas que apelam para nosso pior lado, para vender mais. E muito do burburinho em volta do caso Bettina é, na verdade, descontentamento das pessoas com uma empresa que não se importa em fazer qualquer coisa para ganhar audiência. Quem semeia medo, não pode esperar colher amor.
E isso não cabe mais.
As maiores marcas do mundo não forçam a venda no primeiro contato. Algumas levam anos para vender para você. Justamente por isso, são marcas admiradas e podem cobrar mais caro: souberam respeitar o seu tempo pessoal e você que decidiu a hora certa de comprar.
Por isso, não são só famosas. São desejadas. Bem quistas, possuem fãs apaixonados. Lideram um movimento que ajuda as pessoas a serem melhores, não só tentam vender um promessa mirabolante.
E se a marca não consegue fazer isso, não merece ser líder.
Líder não é quem vende mais. Ou quem tem mais resultados. Líder é quem faz a coisa certa, mesmo quando outros não entendem. E, assim, ele muda as coisas.
Que possamos ter um mercado rico de marcas que nos orgulhamos. Que nos elevam. Que defendem valores de longo prazo.
Que sejamos movidos pela coragem de mudar, não pelo medo de perder.
Isso sim é ter uma vida rica.