31/03/2024
Todo mundo fala que os dois grandes letristas da MPB são Chico e Vinícius. São gigantes, é fato, assim como Gil, Dolores Duran e Renato Russo. Mas pra mim, o maior letrista da música brasileira é Paulo Sérgio Valle, seguido de muito perto por Aldir Blanc.
A gente precisa analisar o conjunto da obra em termos quantitativos e qualitativos, e tb seu alcance popular. Paulinho compôs obras primas como Eu Preciso Aprender a Ser Só e Samba de Verão (esta segunda, uma das músicas brasileiras mais tocadas no exterior) e também incríveis sucessos populares como Aguenta Coração, Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim e o hino não oficial do Brasil, Evidências, entre centenas de outras (isso mesmo, ele tem mais de 900 canções gravadas mais de 2500 vezes). Já Aldir tem toda a obra magistral ao lado de João Bosco, mas também compôs sucessos popularíssimos como A Viagem e Coração Pirata. Vinicius chegou longe com Garota de Ipanema, mas nunca tão longe. Chico, então, nem se fala. Nem Gil. Nem Caetano.
Nos casos específicos do Aldir e do Paulo, nem a velha argumentação da qualidade x popular se aplica - ambos eram exímios letristas. Em termos de poética e relevância social, até classificaria Aldir à frente de Chico. Sua lírica era inovadora, pungente, irônica. Um grande, enorme, fantástico poeta contemporâneo.
Por que eu trago essa discussão? Não é para criar uma escala de valor, arte não é competição. Mas é pra ressaltar que ser popular não é sinônimo de ser ruim. Ouvi outro dia de um rapper a seguinte frase: "por que chamam essas músicas de música popular brasileira se ninguém escuta?" Acho o questionamento válido. Há muito vários artistas brasileiros se descolaram das massas. No meu meio, então, o cinema, isso é muito evidente.
Mozart se apresentava como um compositor popular. Estreou A Flauta Mágica num teatro de quinta, em apresentações a preços populares. Como diz Milton, o artista tem que ir aonde o povo está. E sem essa palhaçada de que o que é qualitativamente superior não vende porque não é popular. Evidências é uma música complexa, com 25 acordes diferentes, uma letra enorme, empréstimos modais, uma melodia intrincada em quatro movimentos numa estrutura que se assemelha a uma ópera resumidíssima. A relutância das duas notas se alternando na parte 1 que decidem seguir seu caminho na parte B e começam uma ascendência melódica dificílima de se cantar no refrão, é de uma poesia musical que se encaixa perfeitamente na letra do Paulo. É popular, mas é muito sofisticado. Muito mais sofisticado do que muito sucesso da Bossa Nova por aí, onde as dissonâncias são só firulas. E olha que sou apaixonado por Bossa Nova.
Pra quem a gente faz arte? Se for pra gente mesmo, é masturbação mental. A gente faz arte pro público. Isso não significa fazer concessões. O verdadeiro artista não as faz. O artista se entrega. Se joga. Se abre. E a gente se emociona porque a verdade emociona. Culpar a ignorância do público porque o que você fez não faz sucesso é de uma insensibilidade com o público e de uma covardia sem igual. Se sua arte encontrou uma forma de chegar ao público, mas o público a recusou, a responsabilidade é sua. Do artista.
Agora... se o que vc faz é verdadeiro e tem qualidade, vai encontrar seu público, não importa se for complexo. Como ensinam Paulinho e Aldir.