23/12/2014
Autopeças têm pior resultado em seis anos
Não é apenas a queda nas encomendas das montadoras que vem derrubando os resultados da indústria de autopeças. O setor também perde mercados no exterior e registra desempenho frustrante no segmento de reposição, fatores que somados ao recuo das vendas ao maior cliente ¬ as fábricas de veículos ¬ levaram as empresas a operar com alta ociosidade e, com isso, demitir empregados.
Estimativa do Sindipeças, a entidade que representa a indústria nacional de componentes automotivos, mostra que os fornecedores de peças caminham para fechar 2014 com faturamento de R$ 75,4 bilhões, o que não apenas interrompe a recuperação esboçada em 2013, quando as vendas alcançaram R$ 85,6 bilhões, como representa o pior resultado em seis anos.
Nos números consolidados pela associação de janeiro a outubro, todos os canais de venda estão no vermelho, a começar pela queda de 16,2% das entregas a montadoras, que absorvem cerca de 70% do total. No mercado de reposição, o recuo no faturamento é menor, de 3,5%. Mas nas vendas intrassetoriais ¬ de um fabricante de autopeças a um sistemista que fornece diretamente à montadora, por exemplo, ¬ o índice negativo volta a alcançar dois dígitos, marcando queda de 10,3%. No total, o recuo no faturamento das empresas de peças nos dez meses foi de 12,6%.
Após variar entre 22,7% e 31,9% em 2013, a ociosidade nessa indústria oscilou neste ano na faixa de 27,1% a 35,1%. Nas estimativas do Sindipeças, 2014 vai terminar com 19 mil postos de trabalho a menos na cadeia de suprimentos automotivos, levando a ocupação para 201 mil empregados. Isso signif**a voltar para perto dos níveis de 2009, quando, no auge da crise financeira global, as fábricas de autopeças empregavam 199,5 mil pessoas.
Não bastassem as dificuldades no terreno doméstico, a indústria nacional de autopeças segue perdendo espaço em grandes mercados no exterior, incluindo o maior deles, a Argentina, para onde suas exportações caem mais de 26%. Números da Secretária de Comércio Exterior (Secex), que cobrem o período de janeiro a novembro e incluem o setor de pneus, mostram que os embarques de autopeças brasileiras acumulam queda de 15,4%, somando US$ 8,46 bilhões nos onze meses.
Além da Argentina, o Brasil vendeu menos para México, Alemanha, Holanda, Itália, Chile e África do Sul ¬ todos esses entre os dez principais destinos das autopeças brasileiras. Segundo o presidente do Sindipeças, Paulo Butori, são mercados perdidos para concorrentes do Leste Europeu, dos Estados Unidos e, claro, da Ásia, principalmente para a competitiva concorrência da China. "Estamos perdendo competitividade. Espero que no próximo ano os líderes empresariais coordenem um enfrentamento maior contra isso", diz Butori.
Mesmo com a forte queda dos embarques ao exterior, houve interrupção no aprofundamento do déficit comercial da indústria de autopeças porque a importação também está em baixa ¬ ainda que o Sindipeças veja nisso mais um reflexo da retração da demanda do que propriamente um resultado das pressões por nacionalização do novo regime automotivo, conhecido como Inovar¬Auto.
Desde o início do ano, as importações já caíram 12%, com menor entrada, inclusive, de peças vindas da China e da Coreia, países que, depois da disparada dos últimos anos, passaram a fazer parte do grupo dos cinco maiores fornecedores externos de componentes automotivos do Brasil, superando até mesmo a Argentina, parceira no Mercosul.
Como resultado, o saldo das trocas comerciais do Brasil com o exterior no setor de autopeças ficou negativo em US$ 9,13 bilhões entre janeiro e novembro. O montante está 8,8% abaixo de igual período de 2013, quando o déficit disparou e superou a marca de US$ 10 bilhões, ao registrar crescimento de 63%.
Fabricantes de autopeças, porém, desvinculam o declínio das importações das metas de nacionalização impostas pelo novo regime automotivo. O Inovar-Auto deu origem a uma série de investimentos em novas fábricas de carros e motores, ao mesmo tempo em que deve forçar montadoras ¬ sobretudo as marcas com menos tempo de produção no Brasil ¬ a aumentar o consumo de peças nacionais, já que são essas compras que vão gerar crédito para abatimento da sobretaxa de 30 pontos percentuais do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos automóveis. As metas de nacionalização do Inovar¬Auto são crescentes, mas, em geral, fornecedores não relataram, pelo menos até agora, grande impacto nas carteiras de pedidos.
Em setembro, quase dois anos depois da edição do novo regime, o governo finalmente colocou em funcionamento o sistema informatizado que vai rastrear a origem das peças consumidas pelas montadoras. O objetivo é fazer valer o propósito inicial da política automotiva de agregar conteúdo local aos automóveis produzidos no Brasil. Seus efeitos, contudo, não são imediatos, porque as empresas ainda estão na fase de adaptação ao sistema, que só termina no fim de março.
Butori diz que durante este ano mais de 50 empresas do setor entraram em recuperação judicial ou quebraram. Os motivos, diz ele, vão desde erros de gestão ao acirramento da concorrência ¬ tanto de produtos nacionais como de importados ¬, o mercado retraído e a escalada de custos, como altos reajustes salariais.
Segundo o executivo, a desvalorização cambial, colocando obstáculo à entrada de produtos importados, será mais importante do que o Inovar¬Auto para a recuperação no ano que vem. Ele diz, contudo, que o cenário nebuloso ainda impede qualquer previsão positiva. "Estou cético em relação ao ano que vem. Não sei, por exemplo, como vai f**ar a situação dos bancos mais ligados a empreiteiras envolvidas no escândalo da Petrobras. O céu não está muito azul."
Por Eduardo Laguna
Fonte : Valor Econômico