29/04/2020
COROINHAVIRUS CONTRA OS CORONHAVIRUS
OS COROINHA VIRUS versus OS CORONHA VIRUS
Quem, como Lulu Santos, vê um novo começo de era, com gente fina, elegante e sincera, deve ter se transportado pra uma festa para captação de recursos de uma ONG de herdeiro de banco.
As misérias da crise, as cenas de guerra, que eram exclusivas de algum país incompreensível do outro lado do planeta, agora estão na esquina.
É sempre o momento em que gente boa se arrisca, se oferece, se voluntaria e cria momentos lindos que fazem a Renata Vasconcelos sorrir de monalisa e inclinar a cabecinha no JN. Só falta o “ohnnn” onomatopaico.
Uma parte da humanidade, nem me meto a calcular, vai sair deste período com sentimentos melhores, forjados pela empatia. E vão exigir que os parceiros não sejam apenas intensos, mas intensivistas.
Outra parte, talvez a grossa maioria, vai chegar do outro lado se debatendo tanto pra sobreviver que nem vai perceber a diferença do mundo sem vírus. Já tiveram seus segundos de fama no Datena fazendo figuração em fila da Caixa.
E a terceira fatia? Estes vão abrir uma pirâmide, uma startup pra destrocar enterrados por engano ou vender tinta de cabelo adulterada pra senhoras ansiosas de raízes à mostra. Tem ainda como oportunidades o farelo-shake detox-iFood, a planta amazônica que derrete a barriga de Netflix e o botox pra corrigir linhas de expressão da máscara na bochecha.
Somos assim. Pra cada bom samaritano que dará passagem pra pedestre, um motorista do Uber vai tomar a dianteira enquanto teoriza que “tem que matar a esta chinesada toda”.
Enquanto a simpática comerciária desempregada vai continuar costurando máscaras com estampas florais, aquela senhora semi-fitness vai comentar no açougue que “morreu até menos gente do que deveria”. E a vizinha vai devolver, “por causa deste pulha deste governador, eu estou gorda feito uma baleia”.
Tem os que vão entender que o vírus é um sinal de que devemos ser mais solidários e disponíveis. E que anotou o nome daqueles gerentes de bancos tão fofos dos comerciais pra ir tentar renegociar seus penduras. Tem os que vão achar que o vírus é uma armadilha de dominação, com mascaras contaminadas e ocultação de informações. Isso pela boa razão de que se estivessem no lugar e pudessem, fariam exatamente isso. Ou resolveriam a tiro e porrada.
E o mundo, depois de diferentes polarizações, passará a ser dividido entre os coroinhavirus e os coronhavirus.
Ah, se alguém for usar alguma das ideias empreendedoras espalhadas por este texto, vou estar cobrando uma taxa.