05/03/2026
Há alguns anos, quando fui a Toronto, levei na mala uma Havaiana amarela com a bandeira do Brasil.
Era apenas um chinelo. Mas virou conversa. Amigos queriam saber onde encontrar um igual.
Para a Patty, minha host mom, levei café e kit Granado. Aromas, sabores e texturas do país. Antes de voltar para casa, eis que até uma galinhada entrou no roteiro, degustada e aprovada pelos quatro cantos da mesa.
Na época, achei apenas curioso. Hoje percebo que pequenos episódios assim às vezes antecipam movimentos maiores.
Certos países ocupam um lugar especial no imaginário coletivo. Nos últimos anos, acredito que o nosso voltou a figurar entre eles.
Um episódio ficou quase simbólico: no primeiro Rock in Rio, em 1985, Freddie Mercury apareceu no palco envolto na bandeira verde e amarela. Décadas depois, Mick Jagger repetiria a cena em Copacabana. Em turnês pelo país, Paul McCartney e Bono fariam o mesmo.
Vestir verde e amarelo ou levantar a bandeira brasileira virou uma linguagem de palco. Um gesto simples de conexão com o público.
Nos últimos anos, porém, esse movimento ganhou nova escala.
Na passagem recente de Dua Lipa por São Paulo e Rio, a cantora circulou vestindo camisetas da seleção e referências à cultura local, incorporando a brasilidade à narrativa da turnê.
Na moda e nas redes, esse movimento ganhou até um nome: Brazilcore.
A camisa da seleção, as cores tropicais, o futebol e a energia urbana voltaram a circular com força.
Quando cultura ganha visibilidade, mercado costuma vir logo depois.
Marcas como Havaianas, Farm Rio e PatBO ampliaram presença global. Ao mesmo tempo, empresas internacionais voltam a olhar para o país não apenas como inspiração estética, mas como território de expansão.
Para marcas, saber ler movimentos culturais e de comportamento pode ser tão importante quanto acompanhar números de mercado.
Porque, muitas vezes, os próximos mercados começam primeiro na cultura.