29/04/2026
COM A PROPAGAÇÃO DESTES BOATOS, QUE SOCIEDADE PRETENDEMOS CONSTRUIR?
Nos últimos dias, têm circulado superstições sobre um suposto desaparecimento de órgãos genitais masculinos, alegadamente provocado por um toque “mágico”.
Esta narrativa tem gerado uma onda de pânico e desestabilização social, fomentando episódios de violência em algumas regiões de Moçambique, com destaque para as províncias de Nampula, Cabo Delgado e Zambézia, resultando em agressões físicas e, em alguns casos, perdas de vidas humanas.
Em muitos episódios, supostos suspeitos são hostilizados e agredidos sob o olhar, por vezes passivo e até conivente, de crianças, como se tal prática fosse socialmente aceitável.
A ciência associa estes casos ao Koro, uma síndrome caracterizada por ansiedade extrema e um medo infundado de que os órgãos genitais estejam a retrair-se para dentro do corpo, prestes a desaparecer.
Está comprovado que o Koro não é uma doença física dos genitais, mas uma condição de natureza psiquiátrica, em que o medo irracional pode manifestar-se por meio de pânico e ansiedade intensa.
Estamos, assim, perante uma dura batalha entre a ciência e a superstição. Enquanto o boato ganha contornos alarmantes, vidas inocentes vão sendo ceifadas, deixando famílias enlutadas e comunidades traumatizadas.
Impõe-se uma reflexão conjunta em todas as esferas da sociedade. Académicos, figuras influentes, políticos, líderes religiosos e autoridades tradicionais são chamados a sentar-se à mesma mesa e afirmar, em uníssono: já basta. Não podemos normalizar este erro crasso nem tolerar uma prática inadmissível que promove linchamentos e destrói o tecido social.
F**a, por isso, a pergunta que não quer calar: que sociedade pretendemos construir — uma guiada pela razão, pela dignidade humana e pela justiça, ou uma refém do medo, da superstição e da violência?
Lencastre Pacua