11/09/2016
Artigo escrito por Flavio Waiteman
Essas palavras são para você, exclusivamente para você publicitário, propagandista ou marqueteiro que
criou e tem em seu portfolio o termo "Golpe"
que todos repetem hoje em dia.
Pra já, um elogio: a campanha do ano. O Viral do ano.
Sucesso em engajamento e ROI. " É Golpe!"
Mas, para argumentar, hoje o facebook não é espaço para isso mas va lá, e trocarmos uma idéia sobre a sua campanha de sucesso, precisaríamos colocar uma premissa, sem sofismas: nada é comunicado em um governo, seja nos EUA, IRÃ, Estado Islâmico, Cuba, Suécia etc, sem que alguém pense, planeje e aprove essa comunicação. No Brasil também é assim. Seja qual for o governo.
São processos contratados, bem pagos e legais, claro. Trabalho que deve ser sim remunerado. Chama-se propaganda. Pois propagam idéias e crenças.
Se aceitarmos que essa preparação ao que se vai comunicar é uma realidade, sem fazer sequer nenhum juízo de valor entre direita e esquerda, se está certo ou errado, podemos ter um ponto relevante para falarmos.
O case: Golpe! , se pudesse ser inscrito em PR em Cannes, ganharia Grand Prix com certeza.
E poderia ser inscrito, porque alguém, em algum momento, sob algum CNPJ, sentou numa mesa com um cliente e abriu um power point ou folha de papel e disse: "Olha, a saida é colocar a narrativa como se fosse um Golpe!".
O power point ainda apontaria:
"- Vocês lutaram contra o golpe militar. As pessoas vão assimilar um termo de uma luta que já fez parte vossa historia."
"- O cidadão comum sofreu muito com o golpe militar. Associar o que vai acontecer a Golpe vai encontrar um bom ponto de conversa com as pessoas em geral. Vai ter a simpatia de todos."
"- Mais de 40 milhões de pessoas subiram de estrato social. Ninguém vai querer que um golpe as apeie dessa condição."
- Etc.
- Etc. 2.
- Etc. etc...
Em minha opinião como publicitário, técnico, sem juízo de valores, eu digo: estratégia perfeita.
Você pode se incomodar com essa palavra Golpe! ou usa-la para suas necessidades: É Golpe! Porém, e ainda sem entrar no mérito se ocorreu ou não, ou se é justo ou não, alguém CRIOU isso.
As narrativas são criadas por alguém.
Algum publicitário?
Algum assessor com pós em semiótica?
Peço ainda a sua isenção para a analise, tão difícil nesses dias. E, apenas imagine a cena. E depois da cena descrita, imagine um pais inteiro repetindo a criação desse cara:
Um telefone que toca no meio da noite. "O" suposto criativo, com pós graduação em Semiótica em notória universidade internacional, que acabara de deitar após um jantar com amigos num vasto apartamento de bairro classe media alta de alguma cidade com mais de 3 milhões de habitantes, primeiro se assusta com o chamado no meio da noite.
Sua esposa, muitos anos mais nova que ele, vira-se pra dormir mais um pouco e fugir daquele ruído incômodo.
Ele atente o celular. Ouve com atenção. E já responde com ganas de resolver o problema:
- Ok, estarei ai amanhã cedo. Vamos resolver isso.
Mal consegue dormir depois daquele ilustre chamado. Vai para o escritório na ala sul de seu apartamento e aproveita o barato da ótima bebida do jantar com os amigos e procura uma saida para aquele problema.
Não pensa em ética, pensa num problema a ser resolvido para um cliente. E, vai resolve-lo.
Senta-se no escritorio e junta os pontos. Resolve o problema.
Como expor um outro ponto de vista que possa ganhar as massas, os intelectuais, os jornalistas que acham que são intelectuais?
Como convencer as "novas mídias", os jornalistas das mídias contrarias ao seu cliente.
Ele se perguntava enquanto tamborilava seu teclado: e os estudantes? Os estudantes universitários que tem a certeza de que são intelectuais, será que eles acreditariam em um discurso criado num job, para um cliente...?
Do lado da sua mesa alguns livros o ajudariam em sua força interior para superar o desafio, com um bom brasileiro, ele mirava o Mein Kampf, Confissões de um Publicitário, etc...
Mas veio a fagulha: e se, todo o processo independente da constituição, fosse considerado um Golpe?!
Caso o cliente não fosse culpado, ficaria como um alerta. Caso perdesse, ajudaria na narrativa do não erro.
Ele abriu mais um whisky e comemorou com um sorriso de canto de boca sua brilhante criação.
Um craque como esse, e já podemos elevá-lo da condição de gênio, ainda pensou mais sobre sua obra criativa.
A palavra Golpe, para uma grande massa de moderados, seria uma justificativa para quem escolheu os golpeados.
A palavra Golpe estaria para os intelectuais de fato, como um caminho argumentativo nebuloso. Não seria a primeira vez que o contexto ajudaria. Os escritores, realmente muito críticos, se sensibilizariam por ela, pois jamais a apoiariam. Mesmo se fosse apenas um problema de sintaxe e interpretação. Palavra amaldiçoada.
Seria como dizer: "pega ladrão" numa rua lotada.
A palavra Golpe, para a direita, mesmo sabendo que a direita latino americana é formada em grande parte por gente de esquerda e centro, seria um movimento de pressão. Para a esquerda a palavra Golpe seria uma hino sonoro e fácil. Basta aumentar o volume e bradar é Golpe! Não precisaria de dialogo, defesa, contrição.
A palavra Golpe para os radicais, seria perfeito para acessar uma resistência armada logo a frente, acaso os caminhos eleitorais, ou os desdobramentos dos fatos assim o pedissem.
A palavra Golpe para os parceiros ideológicos internacionais seria um bom antídoto para as possíveis investigações futuras nos negócios bilaterais que pudessem levantar quaisquer suspeitas.
A palavra Golpe, e ai está o golpe de mestre no power point, seria um prato cheio, um chamado irrecusável aos hormônios de milhões de jovens brasileiros desejosos de reviver os momentos de rebeldia de seus pais e avós. A beleza da relevância.
Uma causa válida para lutar e protestar em dias de solidão de facebook.
- Aprovado!!!!!! Vamos veicular.
Bom, é claro que essas linhas são uma peça de ficção sobre a criação de um tema. "É Golpe!!!" Mas algumas partes do que escrevi devem ter sido verdadeiras e literais.
A escolha da palavra Golpe.
A narrativa bem estruturada.
A palavra "veiculada" milhões de vezes.
A palavra "Golpe!", comprada de corpo e alma por escritores octogenários, por escritores jovens, por periodistas respeitados, por donos de veículos, músicos, comentaristas políticos, esportivos, por colunistas sérios inclusive.
Por escritores imberbes, pela sociedade em geral.
Por professores de faculdades publicas, privadas,
por intelectuais publicados, artistas de teatro, adolescentes empreendedores, etc...
Não existe hoje nada mais bem planejado do que o uso da palavra Golpe! Tema de campanha que deve ter sido apresentado e defendido.
Nada mais bem estudado e pensado.
E enquanto isso, a "campanha é Golpe!" provoca gente perdendo olho.
Gente brigando na rua. Apanhando na rua. Lutando. Sem alterar os resultados de investigação e punição.
Por qual golpe na verdade? Aquele que realmente ocorreu ou fruto de um trabalho publicitário bem remunerado?
Grandes amigos brigando entre si. No trabalho, na família, nos clubes. Amigos de infância topando romper relacionamentos seculares devido a criação de um cara. De um gênio. De um David, Bernback ou Goebbles, depende do que você acredita amigo.
O que me faz pensar: quem foi que criou essa estratégia de comunicação que teve o poder de partir um país inteiro?
Seja você quem for, pois não apareceu ainda o dono da ideia.
Aonde você estiver.
Espero que esteja preparado para o próximo passo.
Tomara que seu talento esteja intacto quando precisarem mobilizar a população a despolir o Tietê por exemplo, ou trazer paz ao pais, ou provocar uma revolução educacional.
Apesar de duvidar muito que o talento para construir seja o mesmo necessário para se destruir algo, espero que esteja presente para unir o pais. E, considere-se pago.
Você é o Grand Prix do ano. Da década. E a campanha ainda não acabou. Ainda podem ter novos desdobramentos.
Você conseguiu dividir de vez um pais.
Mas alguém pode dizer: olha, ninguém mandou o país ser vulnerável a qualquer mensagem criada e difundida assim.
Sua narrativa foi maior que a inteligência de um país para entender que você existe e criou tudo isso.
E incluo ai gente inteligentissima que repete exatamente as mesmas frases de power point apresentadas. Não fosse isso, os argumentos entre os intelectuais seria diferente. Mas são os mesmos. Os mesmos entre PHDs, prêmios camões, entre humoristas e estudantes secundários.
O mesmo argumento. Sempre bem pensado. Estruturado. Vendido e comprado.
Você, criativo, é mais inteligente do que colunistas que brigam a favor ou contra a narrativa que você criou.
Realmente você é um gênio.
Só não o é para mim.