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Caramba pá!Os Uruk-hai cercaram a baía de Cascais!!
06/06/2026

Caramba pá!
Os Uruk-hai cercaram a baía de Cascais!!

04/06/2026
04/06/2026

Ajudei o meu filho a comprar um carro novo enquanto eu andava com o meu cheio de quilómetros há anos. Um mês depois parti a perna a cair nas escadas de casa e liguei-lhe a pedir para me levar ao médico. Respondeu-me com calma: «Pai, chama um táxi, que não sou o teu motorista particular.» Desliguei o telefone e fiquei muito tempo sentado naquele degrau sem me mexer...

Chamo-me Arnaldo. Tenho 67 anos e vivo em Lisboa.

Vivo sozinho há quatro anos, desde que morreu a minha mulher Fernanda. Tenho um filho, o Gonçalo, que tem trinta e oito anos. Mora no mesmo bairro, a uns dez minutos a pé. Digo isto porque é importante saber.

O Gonçalo sempre foi filho único. Demos-lhe tudo o que pudemos, a Fernanda e eu — dentro do que havia, que não era muito. Trabalhei a vida toda numa empresa de construção, ela numa loja de roupa até se reformar. Não fomos ricos, mas o Gonçalo nunca teve falta de nada. Escola, universidade, os anos que demorou a encontrar trabalho estável, os primeiros anos de renda quando o dinheiro não chegava ao fim do mês.

Estivemos sempre lá.

Há cerca de um ano e meio o Gonçalo ligou para me dizer que queria mudar de carro. O dele já tinha bastantes anos e estava a dar problemas, precisava de algo fiável para o trabalho. Explicou que tinha encontrado um em segunda mão, boas condições, bom preço, mas que lhe faltavam quatro mil euros para fechar o negócio.

Não hesitei.

Tinha esse dinheiro numa conta que fui poupando pouco a pouco para imprevistos. No dia seguinte liguei-lhe e disse que podia contar com ele.

— Pai, juro que te devolvo — disse ele.

— Logo se vê — disse eu.

A frase do costume. Aquela que os dois dizemos e que os dois sabemos que provavelmente não vai acontecer, e nenhum dos dois diz mais nada porque é assim que a família funciona, ou era assim que eu achava que funcionava.

Comprou o carro em março. Mandou-me uma fotografia do stand, a sorrir com as chaves na mão. Fiquei contente por ele.

Em abril caí.

Foi uma tonteira. Estava a descer as escadas de casa com um s**o do lixo e pisquei mal o último degrau. A queda foi rápida mas o impacto foi mau. Fiquei deitado no hall durante vários minutos sem conseguir levantar-me. Uma vizinha ajudou-me a sentar num degrau e emprestou-me o telemóvel porque o meu tinha ido a rolar para longe.

A primeira coisa que fiz foi ligar ao Gonçalo.

Era quarta-feira de manhã, passadas as dez. Ele trabalha em casa vários dias por semana — disse-me isso várias vezes.

Atendeu ao segundo toque.

— O que é que se passa, pai?

— Caí nas escadas. Dói-me muito a perna, acho que não consigo andar. Precisava que me levasses ao médico.

Houve um silêncio breve.

— Não podes chamar o INEM?

— Gonçalo, estou no hall de casa, sentado num degrau. Acho que parti alguma coisa.

Outro silêncio.

— Pai, estou mesmo no meio de uma coisa do trabalho. Chama um táxi, que não sou o teu motorista particular.

Desliguei.

Não disse mais nada. Desliguei e fiquei a olhar para o hall.

A vizinha chamou uma ambulância. No hospital disseram-me que tinha o perónio partido. Gesso na perna, duas muletas e um relatório a dizer que não podia apoiar o pé durante seis semanas.

O Gonçalo ligou nessa tarde.

— Como estás? O que disseram?

— Perónio partido. Seis semanas de muletas.

— Eh, que azar. Precisas de alguma coisa?

— Não — disse eu. — Estou bem.

Não era verdade. Estava em casa sozinho, com a perna engessada, sem conseguir ir ao supermercado, sem conseguir deitar o lixo fora, sem conseguir fazer quase nada. Mas disse que estava bem porque não queria pedir-lhe mais nada.

Isso também fiquei a pensar muito naqueles dias.

Porque me custava mais pedir-lhe ajuda a ele do que a qualquer outra pessoa.

Nesses dias lembrei-me de muita coisa. De quando o Gonçalo tinha doze anos e partiu o braço no recreio — saí do trabalho em dez minutos e estava na escola antes de chegar a ambulância. De quando tinha vinte anos e teve uma crise de ansiedade uma noite sem perceber o que se passava — peguei no carro às duas da manhã e fui ao apartamento dele sem precisar que me pedisse duas vezes. As vezes que lhe emprestei o carro, o dinheiro, o tempo.

Não é uma questão de contas. Não funciono assim.

Mas é uma questão que me ponho.

Em que momento deixei de ser o pai para me tornar alguém que o incomoda quando liga?

Não sei. E isso é o mais difícil — que não sei em que ponto exato aconteceu, nem se fiz alguma coisa que o provocou, nem se simplesmente é assim que as coisas são agora e fui o último a perceber.

As seis semanas de gesso passei-as quase sozinho. Veio uma tarde trazer-me fruta do mercado. Ficámos meia hora. Falámos do tempo, do trabalho, de uma viagem que estava a pensar fazer com a namorada.

Não mencionou o táxi.

Eu também não.

Agora ando bem, a perna recuperou. Continuo com o meu carro velho, que já tem duzentos mil quilómetros mas ainda pega.

E continuo a pensar naquela manhã de abril, sentado no degrau do hall, com a perna partida, a olhar para o telemóvel depois de desligar.

Não com raiva.

Com uma tristeza muito calma que é quase pior do que a raiva.



Já vos aconteceu perceber que destes mais do que pensavam, e receberam menos do que esperavam — sem que ninguém seja exatamente o vilão da história? Se esta história vos tocou — deixem um ❤️ e partilhem. Porque há muitos pais sentados em degraus à espera que alguém atenda ao segundo toque.

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