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Central Projectos Lda A Central Projectos tem como atividade a prestação de serviços de projeto e fiscalização de obras.

19/10/2026

O NOVO RJUE: O PODER DE DIZER NÃO E O PODER DE NÃO DIZER NADA

Portugal precisa de simplificar o licenciamento urbanístico. Mas estará preparado para deixar os técnicos trabalhar?

No passado dia 1 de outubro entrou em vigor uma nova revisão do Regime Jurídico da Urbanização e da Edificação (RJUE), através do Decreto-Lei n.º 108/2026, de 29 de maio.

Mais uma reforma legislativa. Mais uma tentativa de simplificar os procedimentos urbanísticos. Mais uma promessa de reduzir a burocracia, acelerar os investimentos e facilitar a construção de habitação.

Gostaria sinceramente de acreditar que desta vez será diferente.

As críticas que têm surgido apontam dificuldades na adaptação dos municípios, problemas nas plataformas informáticas, dúvidas sobre os novos procedimentos e preocupações com a transferência de responsabilidades para os técnicos.

São questões legítimas. Mas há outra, talvez mais profunda, sobre a qual pouco se tem discutido.

Estará Portugal culturalmente preparado para deixar os técnicos trabalhar?

Não me refiro à preparação académica dos engenheiros e arquitetos, nem à capacidade dos serviços municipais para interpretar uma nova lei.

Refiro-me à nossa cultura administrativa, à relação que estabelecemos com a autoridade e à necessidade quase permanente de alguém verificar, autorizar ou validar aquilo que outra pessoa, legalmente habilitada, já assumiu como sendo da sua responsabilidade.

O paternalismo administrativo

Portugal parece continuar preso a uma espécie de paternalismo administrativo.

O engenheiro projeta, mas alguém tem de confirmar. O arquiteto fundamenta, mas alguém tem de concordar. O técnico assina um termo de responsabilidade, mas a Administração continua, muitas vezes, a comportar-se como se essa responsabilidade não fosse suficiente.

Como se o exercício de uma profissão tecnicamente qualificada estivesse permanentemente dependente da aprovação intelectual de uma entidade superior.

Naturalmente, devem existir regras. Devem existir planos urbanísticos, exigências de segurança, normas ambientais e mecanismos de fiscalização.

Ninguém pretende substituir a legalidade pela vontade individual dos projetistas.

Mas existe uma diferença enorme entre verificar o cumprimento da lei e querer decidir tudo aquilo que a lei permite aos técnicos decidir.

Há vários anos que os projetos das especialidades assentam, em larga medida, na responsabilidade dos respetivos autores, sem apreciação técnica prévia pelas câmaras municipais.

Foi um passo importante.

Mas pergunto-me se a nossa Administração interiorizou verdadeiramente essa mudança ou se apenas se adaptou formalmente à legislação, conservando a mesma vontade de intervenção.

A simplificação administrativa não consiste em retirar documentos de um processo. Consiste em retirar decisões desnecessárias do caminho de quem pretende trabalhar.

O poder de dizer não e o poder de não dizer nada

Há uma dimensão desta reforma que considero especialmente importante: o poder.

Uma câmara municipal que tem a capacidade de aprovar ou rejeitar um projeto dispõe de um poder considerável sobre a vida dos cidadãos, sobre os investimentos e sobre a atividade económica.

Esse poder é necessário quando serve para garantir o interesse público.

Mas pode tornar-se um obstáculo quando a capacidade de decidir passa a ser confundida com a importância da própria instituição.

E há uma questão ainda mais delicada.

O poder de uma entidade administrativa não se manifesta apenas na capacidade de dizer não. Manifesta-se também na capacidade de não dizer nada.

Porque quem pode recusar um projeto exerce poder. Mas quem pode deixar um processo sem resposta exerce um poder mais subtil e, por vezes, mais difícil de combater.

O poder de manter o cidadão à espera.

O poder de suspender um investimento sem o rejeitar.

O poder de criar incerteza sem apresentar uma fundamentação.

O poder de obrigar alguém a regressar, telefonar, insistir, esclarecer, justificar e esperar novamente.

Tudo isto pode acontecer sem que exista uma decisão expressa de indeferimento.

Naturalmente, o silêncio administrativo tem enquadramento legal e pode produzir determinados efeitos jurídicos. Mas esses mecanismos não eliminam necessariamente a insegurança prática de quem precisa de avançar com um investimento.

E a incerteza também custa dinheiro.

Um projeto que permanece meses sem uma resposta clara pode representar financiamento imobilizado, trabalhadores sem atividade, oportunidades perdidas e habitações que continuam por construir.

O poder de dizer não é o poder de impedir. O poder de não dizer nada é o poder de impedir sem assumir a responsabilidade de o fazer.

É por isso que uma verdadeira reforma administrativa não pode limitar-se a alterar os procedimentos de aprovação.

Tem também de alterar a relação entre o cidadão e a Administração.

O estatuto de quem decide

Talvez exista aqui uma dificuldade que não se resolve por decreto.

O poder confere estatuto. E a perda de poder pode ser entendida como uma perda de importância.

Uma entidade que deixa de poder pronunciar-se sobre determinadas matérias pode sentir que está a perder autoridade, mesmo quando essa alteração permite prestar um serviço público melhor.

É uma reação humana e institucional que não devemos ignorar.

Uma câmara municipal que deixa de apreciar certos aspetos de um projeto não perde a sua razão de existir. Mas pode perder uma parte da influência que anteriormente exercia sobre o processo.

E receio que nem todas as instituições estejam disponíveis para aceitar essa mudança.

Podemos eliminar uma exigência da lei e vê-la reaparecer num regulamento municipal.

Podemos dispensar uma apreciação prévia e criar novos pedidos de esclarecimento.

Podemos reduzir os documentos obrigatórios e multiplicar as interpretações sobre os documentos apresentados.

Podemos até substituir a decisão prévia por mecanismos de fiscalização que, se forem utilizados de forma desproporcionada, acabem por reproduzir a mesma insegurança que pretendíamos eliminar.

Não estou a afirmar que isso acontecerá necessariamente. Espero que não aconteça.

Mas a experiência aconselha prudência.

O risco é retirarmos a burocracia da lei e deixarmos que ela sobreviva nos hábitos de quem a aplica.

Quem deve decidir o quê?

Uma das dificuldades mais persistentes no urbanismo português está na fronteira entre a competência municipal e a responsabilidade dos projetistas.

Alinhamentos, implantações, áreas, volumetrias e integração urbana são matérias que devem respeitar os instrumentos de gestão territorial e as normas legalmente aplicáveis.

O município tem naturalmente um papel fundamental no planeamento e na defesa do interesse público.

Mas, quando os parâmetros estão claramente definidos, o projetista deve poder desenvolver uma solução dentro desses limites, sem depender de preferências pessoais ou de interpretações sucessivas que não encontram fundamento objetivo na regulamentação.

Não é razoável que uma solução tecnicamente fundamentada e legalmente admissível fique dependente da opinião estética ou da preferência individual de quem aprecia um processo.

Também não é razoável que exigências semelhantes recebam interpretações radicalmente diferentes de município para município, sem justificação normativa.

O território precisa de planeamento. Os cidadãos precisam de regras. Os técnicos precisam de previsibilidade.

E a Administração precisa de compreender que a sua missão não é substituir-se aos profissionais, mas garantir que estes trabalham dentro da legalidade.

Uma câmara municipal não deve ser uma segunda equipa de projeto.

Deve ser uma entidade de planeamento, gestão territorial e fiscalização.

A responsabilidade dos técnicos não pode ser uma formalidade

Mas esta reflexão também exige que olhemos para nós próprios, engenheiros e arquitetos.

Não podemos defender maior autonomia sem aceitar maior responsabilidade.

Se queremos que a Administração confie nos técnicos, temos de demonstrar que essa confiança é merecida.

Um termo de responsabilidade não pode ser apenas um documento assinado digitalmente para completar um processo.

Tem de significar alguma coisa.

O técnico que declara o cumprimento de determinada legislação deve conhecê-la, aplicá-la e responder pelas decisões que tomou.

Quem projeta mal deve assumir as consequências dos seus erros. Quem presta falsas declarações deve ser responsabilizado. Quem não possui competência para determinado trabalho não deve assumi-lo.

As ordens profissionais têm aqui uma responsabilidade fundamental, não apenas na defesa dos seus membros, mas também na garantia da qualidade do exercício profissional.

E a fiscalização deve existir, ser tecnicamente competente e produzir consequências proporcionais quando se verificam incumprimentos.

Mas fiscalizar não é desconfiar sistematicamente de todos.

Fiscalizar é verificar, com critérios objetivos, se as regras foram cumpridas.

A responsabilidade sem consequências é uma ficção. Mas a responsabilidade sem autonomia também o é.

Não podemos exigir que os técnicos assumam integralmente as suas decisões e, simultaneamente, continuar a tratar essas decisões como se dependessem sempre de uma autorização superior.

A habitação não espera pela burocracia

Portugal atravessa uma crise habitacional profunda.

Precisamos de construir mais, recuperar edifícios, mobilizar terrenos, atrair investimento e reduzir os custos que tornam a habitação inacessível a uma parte crescente da população.

Mas construir não depende apenas de financiamento.

Depende de projetos, empresas, trabalhadores, materiais, infraestruturas e, inevitavelmente, de decisões administrativas.

Temos escassez de mão de obra, dificuldades de financiamento, custos de construção elevados e uma capacidade produtiva que não se reconstrói de um dia para o outro.

Acrescentar a tudo isto meses de incerteza burocrática é agravar um problema que já é suficientemente grave.

Cada atraso tem um custo.

E esse custo acaba por chegar ao preço da habitação.

O mesmo raciocínio aplica-se ao investimento público e à execução dos fundos europeus, incluindo o Plano de Recuperação e Resiliência.

Portugal recebeu uma oportunidade extraordinária para modernizar infraestruturas, melhorar serviços e realizar investimentos estruturantes.

Mas o dinheiro disponível não constrói uma escola, um hospital ou uma habitação por si só.

É necessário transformar financiamento em projetos e projetos em obras.

Não basta anunciar investimentos. É preciso executá-los.

Não basta receber fundos europeus. É preciso conseguir utilizá-los dentro dos prazos e com resultados concretos.

E não basta aprovar leis de simplificação. É preciso que a Administração funcione de forma compatível com os objetivos dessas leis.

De pouco serve acelerar os procedimentos no Diário da República se continuarmos a atrasá-los na prática.

Precisamos de mudar a forma como entendemos o serviço público

Não pretendo fazer uma crítica generalizada aos funcionários municipais.

Conheço a importância do seu trabalho e sei que muitos exercem as suas funções com competência, dedicação e sentido de responsabilidade, frequentemente com recursos insuficientes e perante legislação complexa.

O problema não está necessariamente nas pessoas.

Está num modelo administrativo que, durante demasiado tempo, valorizou mais a capacidade de controlar procedimentos do que a capacidade de produzir resultados.

Precisamos de uma cultura de serviço público em que a eficiência seja reconhecida como uma virtude e não confundida com falta de rigor.

Uma cultura em que responder dentro do prazo seja uma obrigação efetiva.

Em que pedir um esclarecimento tenha uma justificação objetiva.

Em que o silêncio não seja uma forma confortável de evitar decisões.

Em que os técnicos municipais sejam valorizados pela competência com que defendem o interesse público e não pelo número de obstáculos que conseguem colocar aos processos.

E em que os projetistas sejam tratados como profissionais responsáveis, não como suspeitos permanentes de incumprimento.

Uma Administração moderna não precisa de decidir tudo para demonstrar a sua importância.

Pelo contrário, demonstra maturidade quando sabe distinguir aquilo que lhe compete decidir daquilo que deve confiar à responsabilidade dos outros.

A verdadeira reforma ainda está por fazer

Gostaria que Portugal evoluísse para uma cultura de responsabilidade, confiança e eficiência, à semelhança das melhores práticas que encontramos em vários países europeus.

Uma cultura em que as regras sejam claras, os técnicos sejam responsáveis, as entidades públicas sejam exigentes e os cidadãos possam confiar na previsibilidade dos procedimentos.

Talvez esteja enganado quanto à resistência à mudança.

Talvez o novo RJUE venha efetivamente a produzir a transformação que há tanto tempo esperamos.

Espero sinceramente que sim.

Mas temo que continuemos a confundir controlo com competência, autoridade com utilidade e burocracia com segurança.

Temos muito que fazer neste país.

Precisamos de habitações, infraestruturas, investimento, empresas competitivas e uma Administração capaz de acompanhar a sociedade que deve servir.

Não podemos continuar a gastar a energia dos nossos técnicos, empresários e cidadãos a ultrapassar obstáculos que nós próprios criámos.

A verdadeira simplificação exige coragem política, competência técnica e, sobretudo, disponibilidade institucional para abdicar de poderes que deixaram de ser necessários.

Portugal não precisa apenas de uma Administração que decida mais depressa. Precisa de uma Administração que compreenda que nem tudo tem de ser decidido por ela.

Porque um país não se constrói com processos administrativos.

Constrói-se com pessoas que sabem o que fazem, que assumem as suas responsabilidades e a quem é permitido trabalhar.

E talvez a maior dificuldade desta reforma não seja ensinar a Administração a dizer sim.

Seja ensiná-la a perceber quando já não precisa de dizer absolutamente nada — e a não utilizar esse silêncio para impedir quem quer fazer.

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João Catarino
Outubro de 2026

19/10/2026

A HABITAÇÃO: O PROBLEMA PODE SER A SOLUÇÃO. MAS CUIDADO COM O EXCESSO!

João Catarino — Engenheiro Civil

Portugal vive uma crise habitacional. Faltam casas, os preços aumentam e construir tornou-se cada vez mais caro. Mas existe um paradoxo económico: a própria escassez que hoje nos preocupa pode criar os incentivos necessários para resolver o problema. E, eventualmente, criar o problema contrário.

Nos últimos anos, os governos adotaram medidas para facilitar o acesso à habitação: isenções fiscais para jovens, garantias bancárias para financiamento até 100%, apoios ao arrendamento, incentivos fiscais, redução do IVA em determinadas construções, simplificação de licenciamentos e possibilidade de converter lojas em habitação.

São medidas com objetivos positivos. Contudo, algumas estimulam sobretudo a procura. Quando existem poucas casas, aumentar a capacidade financeira dos compradores pode simplesmente contribuir para aumentar os preços.

Entretanto, os custos de construção continuam pressionados pela energia, combustíveis, matérias-primas, salários, escassez de mão de obra e dificuldades de financiamento.

Mas é precisamente aqui que o mercado pode encontrar uma solução.

Quando há escassez, os preços aumentam. Quando os preços aumentam, a rentabilidade potencial atrai investidores. E quando o investimento se transforma em novas habitações, a oferta aumenta e os preços podem estabilizar.

A construção industrializada, a pré-fabricação e os sistemas modulares poderão desempenhar um papel decisivo, permitindo produzir mais habitações com menos mão de obra.

O lucro não é necessariamente o inimigo da habitação acessível. Pode ser o incentivo que permite construí-la.

Mas gostaria de deixar um alerta aos investidores.

Segundo a AIMA, Portugal tinha cerca de 1,54 milhões de residentes estrangeiros em 2024, contra aproximadamente 422 mil em 2017. Este crescimento populacional contribuiu para aumentar a procura habitacional, embora não seja a única causa da crise.

Façamos um exercício puramente hipotético, sem qualquer defesa de expulsões ou restrições migratórias.

Imaginemos que uma decisão política radical provocava a saída de todos os residentes estrangeiros. O que aconteceria ao mercado habitacional?

Admitindo, apenas para cálculo, uma ocupação média entre 2,5 e 4 pessoas por habitação, estaríamos a falar de uma procura equivalente a aproximadamente 386 mil a 617 mil habitações.

Não significa que todas essas casas ficassem efetivamente disponíveis. Há famílias mistas, habitações partilhadas e situações de sobrelotação. O cálculo é uma simulação da dimensão da procura que poderia desaparecer, não uma previsão de casas devolutas.

Mas comparemos essa ordem de grandeza com a produção nacional: em 2025, Portugal concluiu cerca de 27 mil habitações novas.

Estamos a falar de um choque potencial de procura equivalente a 14 a 23 anos da atual produção anual de habitação nova!

Naturalmente, uma saída populacional dessa dimensão também teria consequências económicas profundas, incluindo a perda de trabalhadores necessários à própria construção.

O objetivo deste exercício é demonstrar como uma alteração demográfica ou política pode transformar rapidamente um mercado aparentemente seguro.

E nem sequer seria necessária uma mudança tão extrema. Uma redução da imigração, uma alteração das condições de crédito, uma recessão económica ou a entrada simultânea de milhares de novas habitações podem modificar significativamente o equilíbrio entre oferta e procura.

É este o verdadeiro alerta aos investidores: a escassez atual não é uma garantia de rentabilidade permanente.

Hoje, a falta de habitações cria oportunidades extraordinárias para quem conseguir construir com eficiência. Mas um investimento imobiliário pode demorar vários anos entre a aquisição do terreno, o projeto, o licenciamento e a conclusão da obra.

O mercado encontrado no momento da venda pode ser muito diferente daquele que justificou o investimento inicial.

Já vivemos ciclos de expansão e crises profundas na construção. Não devemos repetir os erros do passado, criando estruturas produtivas gigantescas que só conseguem sobreviver enquanto os preços continuam a subir.

Precisamos de investir, construir e industrializar, mas com prudência, flexibilidade e capacidade de adaptação.

A solução para a crise habitacional é aumentar a oferta. Mas o investimento deve ser dimensionado para uma procura sustentável, não para a escassez momentânea.

Porque, na economia, a falta de hoje pode transformar-se no excesso de amanhã.

E quem investir convencido de que os preços só podem subir poderá descobrir, demasiado tarde, que ajudou a construir a próxima crise.

João Catarino
Engenheiro Civil

Fontes: AIMA — Relatório de Migrações e Asilo 2024; INE/Pordata — Fogos concluídos em construções novas para habitação familiar, 2025. Os cálculos sobre a saída de residentes estrangeiros são exclusivamente cenários hipotéticos.

18/10/2026

A CONSTRUÇÃO QUE DESTRUÍMOS E QUE JÁ NÃO CONSEGUIMOS RECUPERAR

Uma reflexão sobre a crise de 2008, a emigração e o futuro da construção em Portugal.

Portugal vive hoje um paradoxo: precisamos desesperadamente de construir habitações, temos projetos e necessidades de investimento, mas já não temos trabalhadores, empresas e capacidade técnica suficientes para responder.

Como chegámos aqui?

Tudo começou, em grande medida, com a crise financeira de 2008. Uma crise que teve origem no sistema financeiro norte-americano, com o crédito hipotecário de alto risco (subprime), e que rapidamente contaminou a economia mundial.

Em Portugal, discutiram-se as autoestradas, as grandes obras públicas e os investimentos considerados megalómanos. Algumas dessas opções podem e devem ser questionadas. Mas não foram elas que provocaram a crise financeira internacional.

A falta de financiamento, a retração do investimento e, posteriormente, a crise da dívida soberana tiveram consequências devastadoras para a construção portuguesa.

OS NÚMEROS MOSTRAM A DIMENSÃO DO PROBLEMA

Segundo dados do INE/Pordata:

- Em 2008, a construção empregava cerca de 540 mil trabalhadores.
- Em 2017, restavam aproximadamente 308 mil.
- Em 2025, apesar da recuperação, existiam cerca de 373 mil.

Perdemos, portanto, cerca de 232 mil empregos entre 2008 e 2017. Uma redução de 43%.

Na habitação, a transformação foi ainda mais impressionante:

- Em 2002, concluímos cerca de 126 mil habitações novas.
- Em 2015, apenas 7 mil.
- Em 2025, recuperámos para cerca de 27 mil.

Não significa que precisemos de regressar aos excessos de construção do passado. Mas estes números mostram a dimensão da capacidade produtiva que desapareceu.

NÃO PERDEMOS APENAS TRABALHADORES. PERDEMOS CONHECIMENTO.

Lembro-me perfeitamente desses anos. A própria Ordem dos Engenheiros manifestava preocupação com a falta de emprego e surgiam iniciativas de recrutamento internacional.

Vi excelentes engenheiros emigrar. Vi empresas procurar oportunidades em França, Inglaterra, Angola e Cabo Verde, onde decorria, entre outros, o programa Casa para Todos.

Muitos conseguiram reconstruir a vida no estrangeiro. Outros abandonaram definitivamente o setor.

E as empresas que encerraram levaram consigo algo que as estatísticas não conseguem medir: equipas experientes, conhecimento acumulado e capacidade de ensinar novas gerações.

Um encarregado de obra não se forma em seis meses. Um bom pedreiro aprende durante anos. Um engenheiro experiente não se substitui simplesmente por um recém-licenciado.

Durante décadas, a construção viveu da transmissão de conhecimento entre gerações. O aprendiz começava como servente, aprendia com os oficiais e, progressivamente, adquiria experiência.

A crise interrompeu essa cadeia.

O PROBLEMA DOS SALÁRIOS E DA FORMAÇÃO

Entretanto, Portugal aumentou significativamente o salário mínimo, melhorando justamente os rendimentos de muitos trabalhadores.

Mas há uma consequência económica que não podemos ignorar.

Hoje, uma pequena empresa de construção suporta custos salariais e contributivos elevados para contratar alguém que ainda não sabe trabalhar e que poderá demorar muito tempo a adquirir produtividade.

Ao mesmo tempo, muitos jovens preferem atividades com horários regulares, menor esforço físico e melhores condições de trabalho.

Não é apenas uma questão salarial. É uma questão de atratividade profissional, produtividade e capacidade de financiar a aprendizagem.

Existem cursos profissionais, mas faltam condições para transformar essa formação em experiência efetiva de obra.

O resultado está à vista: num inquérito da AICCOPN, realizado no primeiro trimestre de 2025, 75% das empresas inquiridas no segmento das obras públicas apontavam a falta de mão de obra especializada como um obstáculo à atividade.

A CONSTRUÇÃO TRADICIONAL JÁ NÃO PODE SER A NOSSA PRINCIPAL RESPOSTA

Esta é a conclusão a que chego depois de décadas ligado à engenharia e à construção.

Portugal dificilmente conseguirá recuperar, na escala necessária, o modelo tradicional baseado em grandes quantidades de mão de obra especializada a trabalhar diretamente nos estaleiros.

Poderíamos ter feito uma transição lenta para a construção industrializada, aproveitando os trabalhadores experientes enquanto formávamos novas gerações.

Mas perdemos essa oportunidade.

Hoje, já não temos equipas suficientes para manter a construção tradicional em grande escala e, simultaneamente, preparar tranquilamente a sua substituição.

A construção tradicional continuará a ser necessária, sobretudo na reabilitação e nas obras especializadas. Mas não poderá, sozinha, resolver as nossas necessidades habitacionais.

A INDUSTRIALIZAÇÃO DEIXOU DE SER UMA OPÇÃO. TORNOU-SE UMA NECESSIDADE.

Precisamos de transferir grande parte do trabalho dos estaleiros para ambientes industriais.

Construir com painéis pré-fabricados, estruturas leves, componentes normalizados e módulos produzidos em fábrica.

Não se trata simplesmente de substituir trabalhadores por máquinas. Trata-se de permitir que cada trabalhador produza mais, com melhores condições, maior controlo de qualidade e menor dependência das condições atmosféricas.

E esta transformação começa nos projetos.

Os engenheiros e arquitetos terão de conceber edifícios preparados para fabrico e montagem, com especialidades compatibilizadas, ligações normalizadas e soluções repetíveis.

A modelação digital, a automação e a inteligência artificial poderão desempenhar um papel importante nesta transformação.

Naturalmente, industrializar não significa construir automaticamente mais barato. Exige investimento, escala, planeamento e competência técnica.

Mas permite enfrentar o problema que hoje mais nos limita: a falta de capacidade humana para construir pelos métodos tradicionais.

AS CONSEQUÊNCIAS DAS DECISÕES ECONÓMICAS

A emigração melhorou a vida de milhares de portugueses. O aumento dos salários mínimos também trouxe benefícios sociais importantes.

Mas as transformações económicas têm consequências que nem sempre antecipamos.

Ao perder trabalhadores experientes, empresas e capacidade de formação, Portugal comprometeu parte da sua capacidade produtiva futura.

E agora descobrimos que não basta disponibilizar dinheiro, lançar programas habitacionais ou simplificar licenciamentos.

É preciso ter quem projete, quem organize e quem construa.

CONCLUSÃO

A capacidade produtiva de um país não se mede apenas pelo dinheiro disponível. Mede-se também pelo conhecimento das pessoas, pela experiência das empresas e pela capacidade de transmitir esse conhecimento às gerações seguintes.

Portugal perdeu uma parte importante desse património.

Não acredito que possamos reconstruir a construção tradicional tal como a conhecemos. Nem considero que esse deva ser o nosso objetivo.

Temos de construir de outra maneira: mais industrializada, mais organizada, mais produtiva e menos dependente de grandes quantidades de trabalho manual.

A transição poderia ter sido gradual. Agora terá de ser muito mais rápida e difícil.

A crise de 2008 não destruiu apenas milhares de empregos e empresas. Destruiu também uma parte da capacidade que tínhamos para construir o futuro.

E essa é uma dívida que continuamos a pagar.

João Catarino
Engenheiro Civil

Fontes: INE/Pordata — emprego na construção e fogos concluídos; AICCOPN — Inquérito ao Setor da Construção, 1.º trimestre de 2025; Banco de Portugal — análises à crise e ao financiamento da construção.

16/10/2026

Faltam casas? Então deixem fazer casas.

João Catarino — Engenheiro Civil

Sou engenheiro civil e talvez tenha uma visão demasiado simples do problema da habitação. Mas, depois de ouvir tantas explicações, medidas e promessas, continuo convencido de uma coisa: para resolver a falta de casas, temos de fazer casas.

Podemos discutir subsídios, benefícios fiscais, crédito e limites às rendas. Tudo isso tem o seu lugar. Mas nenhuma dessas medidas acrescenta, por si só, uma habitação à oferta disponível. E, enquanto houver muitas pessoas à procura de poucas casas, continuará a ser difícil encontrar uma renda suportável ou comprar uma casa nova.

A questão seguinte devia, portanto, ocupar o centro da discussão: o que está a impedir-nos de construir mais e a preços compatíveis com os rendimentos dos portugueses?

Comecemos pelo chão. Para fazer casas, precisamos de terrenos onde seja possível fazê-las.

Os planos diretores municipais têm de prever espaço para as necessidades de habitação. A reforma do ordenamento do território eliminou a antiga categoria de solo urbanizável, obrigando a rever o enquadramento das áreas anteriormente destinadas à expansão urbana. O que contesto é que essa reorganização possa deixar municípios com menos capacidade efetiva para responder à procura, sem alternativas prontas a construir.

Se faltam terrenos adequados, os PDM devem ser ajustados. Com critério, com infraestruturas e respeitando as áreas que importa proteger. Um terreno no mapa só se transforma numa possibilidade de habitação quando tem acessos, água, saneamento e condições reais para construir.

O Estado e as autarquias também podem disponibilizar terrenos, através de soluções transparentes e com obrigações de construção. Precisamos de solo que chegue à obra, dentro de prazos definidos.

Depois, precisamos de licenciamentos céleres.

A legislação prevê o deferimento tácito em determinadas situações, quando se esgotam os prazos legais sem decisão, cumpridos os pressupostos aplicáveis. Falta perceber como funciona esta simplificação na vida de quem quer construir.

Tenho curiosidade em ver o que acontecerá ao particular que invoque esse direito. Encontrará uma câmara preparada para o reconhecer? Ou passará a ter um fiscal à porta todos os dias, a “molestá-lo”, como diria uma amiga minha?

Fiscalizar é necessário. Usar a fiscalização para castigar quem exerceu um direito seria inaceitável. Quem cumpre precisa de previsibilidade, de critérios claros e de uma administração que decida em tempo útil.

Porque o tempo também entra no preço da casa. Durante a espera, há capital imobilizado, juros, orçamentos que perdem validade e famílias que continuam a pagar renda. No fim, alguém suporta essa conta.

Há ainda o peso da regulamentação.

Na minha experiência profissional, lembro-me de processos que se concentravam num conjunto bastante mais reduzido de especialidades: estruturas, águas, esgotos e pouco mais, conforme o caso. Hoje, entre projetos, estudos, planos, certificações e termos de responsabilidade, a documentação de uma moradia pode tornar-se um processo de grande complexidade.

Convém distinguir o número de especialidades do conjunto de documentos exigidos. Mas, para quem paga, todos contam: exigem trabalho, coordenação, tempo e dinheiro.

E aqui devemos ser honestos. Uma parte dessas exigências corresponde a ganhos reais de qualidade. Uma casa com bom isolamento térmico, conforto acústico, instalações seguras e menor consumo de energia oferece melhores condições de vida. Os portugueses também precisam de compreender que essa qualidade tem um custo inicial, embora possa trazer poupanças durante a utilização.

O trabalho sério consiste em perceber quais as exigências que protegem efetivamente as pessoas e quais acrescentam sobretudo burocracia. Cada obrigação devia justificar o custo que impõe.

Queremos casas boas e acessíveis. Para conseguir as duas coisas, temos de melhorar a forma de as produzir.

É aqui que entra outro obstáculo: a falta de inovação.

Continuamos muitas vezes a construir como se cada casa fosse uma peça única, inventada e resolvida no estaleiro. Há saber e mérito nesse trabalho, mas precisamos de ganhar produtividade. Com escassez de mão de obra, insistir exclusivamente nos mesmos processos limita a nossa capacidade de resposta.

Temos de desenvolver a pré-fabricação, a construção industrializada, os componentes normalizados e os sistemas que permitem executar mais trabalho em fábrica, com controlo de qualidade e menos desperdício. Comparar soluções pelo seu desempenho, pelo custo final e pela durabilidade.

É inovar, pessoal.

Também devemos facilitar a vida a quem quer promover a sua própria habitação. Com técnicos habilitados, empreiteiros competentes e apoio municipal, construir a própria casa pode ser uma opção para mais famílias. Cooperativas e pequenos grupos de futuros proprietários também merecem condições para avançar.

Claro que construir demora e que haverá famílias a precisar de apoio imediato. Aumentar a oferta também exige atenção à localização, ao preço e ao destino das casas: precisamos de habitações onde as pessoas vivem e trabalham, incluindo para arrendamento e para rendimentos mais baixos.

Mas nenhuma política de habitação será suficiente se mantivermos os obstáculos que impedem a oferta de crescer.

Disponibilizem terrenos. Preparem infraestruturas. Cumpram prazos. Simplifiquem procedimentos. Exijam qualidade com proporcionalidade. Abram espaço à inovação e a quem quer construir.

E depois façamos casas.

Tarã! Talvez a solução comece precisamente por aí.

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